Opinião

A grandeza do IMAX

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Como é que os mercados tiram partido das características específicas dos ecrãs IMAX? Não seria tempo de considerar que a sua dimensão espectacular pode ser explorada para além das rotinas dos filmes de super-heróis?

Em Lisboa, os jornalistas presentes na projecção de imprensa do novo filme de Quentin Tarantino, “Era uma Vez em Hollywood”, tiveram uma bela surpresa. Assim, puderam vê-lo na grandeza de um ecrã IMAX (aliás, como é sabido, indissociável de um sofisticado envolvimento sonoro). Para aqueles que já conheciam o filme da sua apresentação no Festival de Cannes (onde não passou em IMAX), foi um excelente sublinhado das respectivas qualidades visuais e sonoras.

Na sua singularidade, este episódio é tanto mais interessante quanto nos permite (re)pensar uma questão — de uma só vez comercial e artística — a que, na minha perspectiva, o mercado global não tem prestado a devida atenção. Que é como quem diz: de um modo geral, as potencialidades do IMAX não são devidamente rentabilizadas.

Instalou-se no imaginário do consumo a noção simplista segundo a qual o gigantismo do ecrã IMAX se adequa “apenas” aos filmes de super-heróis e a aventuras inter-galácticas. Estranho esquematismo... E nem sequer se trata de lembrar que esses produtos estão a viver uma crise criativa cada vez mais penosa (é esse, pelo menos, o meu ponto de vista). Trata-se, isso sim, de reconhecer uma evidência: é imensa a lista de filmes de todas as épocas, estilos e temáticas que poderiam ser (re)valorizados através do IMAX.

Não será necessário evocar uma lista muito longa de títulos para ilustrar tal evidência. Para nos ficarmos por uma época de (também) profundas transformações técnicas do cinema, recordemos as chamadas “superproduções” das décadas de 1950/60. Imaginemos o que seriam filmes como “A Ponte do Rio Kwai” (1957), “Lawrence da Arábia” (1962) ou “Doutor Jivago” (1965) projectados em salas IMAX (curiosamente, todos eles realizados pelo mestre britânico David Lean). Ou ainda o genuíno efeito de revelação que, para a maior parte dos espectadores, poderia ser a possibilidade de assistir num ecrã realmente gigante a clássicos como “O Feiticeiro de Oz” e “E Tudo o Vento Levou” (ambos de 1939, ambos assinados por Victor Fleming).

Refira-se também o exemplo revelador de Francis Ford Coppola, precisamente um autor que nunca deixou de estar atento à evolução tecnológica do cinema. Coppola assinalou os 40 anos da sua obra-prima “Apocalypse Now” [foto] com uma “versão final” apresentada em estreia no Festival de Tribeca, depois exibida em algumas salas IMAX americanas.

Não sejamos ingénuos. Claro que todos sabemos que a criação de condições para que tal aconteça depende de decisões (tomadas, sobretudo, nos EUA) que transcendem os poderes específicos dos agentes de pequenos mercados nacionais como o português. Mas é isso mesmo que está em jogo... Ou seja: a capacidade de pensar a dinâmica comercial do cinema realmente em termos globais, atendendo sempre à pluralidade da sua difusão e dos seus públicos. Caso contrário, a palavra “globalização” tende a ficar reduzida a um emblema tecnocrático, alheio a qualquer forma de cinefilia.

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