Opinião

Por amor dos livros (e dos filmes)

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Sabemos que um bom livro não é garantia de um bom filme... No seu sarcasmo elegante, Alfred Hitchcock gostava mesmo de dizer que os maus livros são os melhores para fazer bons filmes.

Enfim, convenhamos que não há regras automáticas para definir as múltiplas relações cinema/literatura e não será necessário grande esforço de memória para cada um de nós encontrar uma “boa” ou “má” relação entre um determinado filme e o livro que o inspirou. Em termos pessoais, assim de repente, ficando pela produção do século XXI, gosto de citar o exemplo de “Cosmopolis” (2012): a conjugação do romance de Don DeLillo com a visão do realizador David Cronenberg parece-me ser um caso raro de cumplicidade criativa, para mais permitindo a Robert Pattinson [foto] aquela que me parece ser a melhor composição da sua carreira.

Surgem estas notas a pretexto da estreia de “O Pintassilgo”, filme de John Crowley, com Ansel Elgort, Nicole Kidman e Jeffrey Wright, entre outros, adaptando o “best-seller” homónimo de Donna Tartt (ed. Presença) sobre o envolvimento de um jovem com a história agitada de uma pintura holandesa de meados do século XVII.

Encontramos em “O Pintassilgo” um gosto de transposição do livro para o filme que está muito para lá da mera colagem das “peripécias” que o livro relata. Dito de outro modo: deparamos com um genuíno trabalho de adaptação em que se sente que tudo foi pensado, desde a caracterização emocional de cada personagem até aos sobressaltos (e são muitos!...) de uma estrutura narrativa que realmente nos vai surpreendendo, sem necessidade de criar “agitação” e “ruído” através de vulgares efeitos especiais.

Nesta perspectiva, diria que “O Pintassilgo” é um filme saborosamente “antigo”. Não num sentido retórico — trata-se, aliás, de uma história com muitas marcas da América pós-11 de Setembro. Antes por esse gosto de trabalhar as nuances da escrita literária (sou dos que consideram o romance de Donna Tartt uma fascinante obra-prima), recriando-as e, de alguma maneira, reinventando-as através das imagens e sons de que se faz o cinema.

Enfim, mesmo sem querer favorecer visões esquemáticas ou deterministas da história dos filmes, vale a pena citar títulos tão célebres como “E Tudo o Vento Levou” (Victor Fleming, 1939), “Um Lugar ao Sol” (George Stevens, 1951), “Psico” (Alfred Hitchcock, 1960), “2001: Odisseia no Espaço” (Stanley Kubrick, 1968) ou “A Cor Púrpura” (Steven Spielberg, 1985)… Que factor os pode unir? Pois bem, a sua inspiração provém dos livros