Opinião

“A Herdade” na corrida aos Óscares

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Como é sabido, “A Herdade” foi escolhido para ser o representante oficial do nosso país na 92ª edição dos Óscares (a realizar no dia 9 de Fevereiro de 2020). Mais exactamente, a realização de Tiago Guedes vai integrar o lote de obras candidatas a uma nomeação para o Óscar de melhor filme estrangeiro, ou melhor, e de acordo com a nova designação adoptada pela Academia de Hollywood, “melhor filme internacional” (anteriormente, “melhor filme em língua estrangeira”).

Quais são as hipóteses de “A Herdade” [foto] chegar a uma das cinco nomeações para esse Óscar ganho pela última vez por “Roma”, de Alfonso Cuarón, em representação do México? Em boa verdade, a meu ver, creio que muito poucas. E não me parece que, dizendo-o, esteja a ser demasiado pessimista — é uma simples questão de pragmatismo.

Espero, sinceramente, estar enganado. E tanto mais quanto o trabalho de Tiago Guedes me parece brilhante, evocando algumas décadas da história pré e pós-25 de Abril num tom de epopeia melodramática raro no contexto da produção portuguesa. Trata-se apenas de não escamotear uma verdade muito básica: apesar do prestígio internacional conquistado por muitos filmes portugueses — sobretudo depois do Leopardo de Ouro arrebatado por “O Bobo”, de José Álvaro Morais, na edição de 1987 do Festival de Locarno — nunca foi estabelecida uma política cultural de difusão do cinema português com um mínimo de regularidade, estabilidade e ambição. E também, não nos iludamos, com os indispensáveis meios humanos e financeiros para ser executada.

Sempre me pareceu que a análise deste tipo de questões em função da “qualidade” do filme A ou B, ou do “talento” do cineasta X ou Y, tende a gerar clivagens e conflitos num domínio em que deveria prevalecer alguma unidade estratégica. Não se trata de pensarmos todos o mesmo sobre as obras que vão sendo produzidas (o que, além do mais, seriam insuportavelmente monótono…). Trata-se, isso sim, de trabalhar a partir de uma hipótese, frágil sem dúvida, mas com algumas potencialidades. A saber: como é que uma cinematografia de meios tão limitados pode, através das suas singularidades criativas, marcar pontos num mercado global em que a maior parte dos envolvidos (a começar pelos outros países europeus) investe de modo incomparavelmente mais forte e, sobretudo, mais sistemático.

Isto sem esquecer, claro, que participar neste tipo de corrida é entrar num universo, realmente global, de aguerrida concorrência. No plano meramente estatístico, vale a pena referir que desde a criação do Óscar de melhor filme estrangeiro, na 29ª cerimónia da Academia, em 1957, os países com maior número de candidaturas são, naturalmente, os que possuem indústrias mais fortes e estruturadas: França, Itália e Japão, cada um deles com 65 títulos apresentados. A França conseguiu o maior número de nomeações (39), logo seguida da Itália (31); curiosamente, é a Itália o país que obteve mais vitórias (14), com os franceses em segundo lugar (12). O ano de produção que suscitou maior número de candidaturas foi 2017: concorreram 92 países, tendo ganho “Uma Mulher Fantástica”, de Sebastián Lelio, em representação do Chile

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