Opinião

1939: ano mágico em Hollywood

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

A figura de Judy Garland (1922-1969) está de volta ao cinema através de uma notável interpretação de Renée Zelleweger: a sua história dramática leva-nos a revisitar a exuberante produção de Hollywood ao longo do ano de 1939.

Na cena de abertura do novo filme “Judy”, dominado por uma notável composição de Renée Zellweger, vemos uma ainda muito jovem Judy Garland (neste caso, interpretada por Darci Shaw) a trabalhar num cenário dominado por uma estrada de tijolos amarelos… É, obviamente, a lendária “yellow brick road” de “O Feiticeiro de Oz”, precisamente o filme que conferiu a Judy Garland uma dimensão mitológica.

Neste momento de reencontro com a história dramática de uma das mais talentosas actrizes do período clássico de Hollywood (o novo filme centra-se, precisamente, nas atribulações dos seus anos finais), vale a pena lembrar que “O Feiticeiro de Oz” não era, de modo algum, uma excepção. O respectivo ano de produção — 1939 — é mesmo muitas vezes apontado como um dos momentos mágicos da “fábrica de sonhos”, recheado de produções inovadoras e espectaculares, há muito inscritas na galeria dos grandes clássicos.

Para nos ficarmos pelo exemplo mais óbvio, lembremos que Victor Fleming, o realizador de “O Feiticeiro de Oz”, assinou no mesmo ano o lendário “E Tudo o Vento Levou”. Da impressionante lista de estreias americanas de 1939, recordemos apenas três títulos emblemáticos:

— NINOTCHKA: história de espionagem narrada com o humor do grande Ernst Lubitsch, foi também um momento marcante na carreira de Greta Garbo — afinal, a estrela “fria”, vinda da Suécia, era também uma brilhante actriz de comédia [poster].

— CAVALGADA HERÓICA: combinando subtileza dramática e sentido espectacular, o célebre “Stagecoach”, assinado por John Ford, com John Wayne no papel central, ficou como uma referência incontornável na história do “western”.

— A GRANDE ESPERANÇA: também realizado por John Ford, chama-se no original “Young Mr. Lincoln” e faz o retrato do jovem advogado Abraham Lincoln, cerca de três décadas antes de ser eleito Presidente dos EUA — na personagem de Lincoln, Henry Fonda tem uma das mais complexas composições de toda a sua carreira.

Vivia-se, afinal, um período de invulgar energia criativa e também de enorme vitalidade comercial — por alguma razão, “E Tudo o Vento Levou” continua a ser o filme mais rentável de sempre (quando os números das receitas são considerados com a devida correcção através do factor inflação). Por um lado, depois das hesitações iniciais, a integração do som estava consumada como elemento intrínseco dos filmes; por outro lado, a evolução da fotografia a cores era também fulgurante, em particular através da exuberância do Technicolor (mesmo se exemplos como “Ninotchka”, “Cavalgada Heróica” e “A Grande Esperança” são, todos eles, fotografados em admiráveis imagens a preto e branco).

Enfim, convém não ceder a generalizações simplistas. Assim, não esqueçamos que 1939 é também o ano de “A Pousada da Jamaica”, derradeira realização britânica de Alfred Hitchcock antes de partir para os EUA, “A Regra do Jogo”, obra-prima da produção francesa assinada por Jean Renoir, ou “O Conto dos Crisântemos Tardios”, do mestre japonês Kenji Mizoguchi. Dito de outro modo: há 80 anos, sem Internet nem plataformas de “streaming”, o cinema era mesmo um fenómeno global.

  • "A Lavandaria" - Segundo episódio
    31:39