Opinião

A canja da tia Mila e os votos

ANDRÉ KOSTERS

Opinião de Pedro Cruz

Ao domingo, a tia Mila junta a família e faz uma sopa daquelas como deve ser.
O jantar é (só) o caldo da tia Mila, sempre nutritivo e variado.
Ontem foi canja, mas nada de canjas de pacote ou frangos de aviário. A ASAE e o PAN não sabem mas a tia Mila tem um galinheiro com galinhas a sério, daquelas que comem terra e minhocas.
O que depois dá uma canja daquelas que não se come em mais lado nenhum.


As sete e meia em ponto, como sempre, ao domingo, a tia Mila pousou a canja na mesa e disse, solene:
- “Venham comer para depois irmos ver os votos”.


Ninguém discordou.
A canja estava uma delícia.


Às oito a tia Mila estava diante da televisão a ver os votos.
E entretida com umas bainhas por acabar para a sobrinha.
Foi ouvindo «os votos» mais do que vendo.
Projeções, sondagens, totais distritais e nacionais.
Análises e cenários futuros. Coligações e conjecturas.
De números a tia Mila percebe.
Algumas palavras que os senhores da televisão iam dizendo é que às vezes era mais difícil de entender.


A tia Mila é de esquerda.
Trabalhou 40 e tal anos na fábrica e votou sempre no mesmo.
Ou quase.
Ela concorda com vários (partidos) ao mesmo tempo.
Acha bem um aumento do salário, menos horas de trabalho por semana, mas também é contra os subsídios para quem não faz nada, é a favor da polícia, do respeito e não é muito dada a não matar animais, como se vê pela canja.



No fim da noite, depois de absorver aquele carrossel de números, comentários, discursos e declarações, análises e antevisões, a tia Mila foi-se deitar.
- “ficou tudo na mesma”.


E em quatro palavras apenas rematou a noite «dos votos».
Entretanto, já tinha acabado a baínha.

(A tia Mila é ficção. Qualquer semelhança com a realidade terá sido pura coincidência).

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