Opinião

O erro de arrumar Ventura a um canto

Opinião de Bernardo Ferrão, SIC.

Assisto com preocupação ao alvoroço parlamentar por causa de André Ventura. E o meu espanto é com os que julgam que o fragilizam, cerceando-lhe os movimentos ou “construindo” uma porta nos fundos para nem sequer se cruzarem com ele. Que vazio de ideias e de bom senso. Erram porque lhe alimentam o discurso.

Mais do que olhar para a questão do faz-se-ou-não-uma-porta, o que verdadeiramente me interessa, e preocupa, é se esta reação é já uma antecipação das velhas dinâmicas da nova Assembleia da República que toma posse na sexta-feira. O país assistirá a um virar de página com a entrada de mais três partidos no jogo. Bem sei que outros já o disseram, mas importa repetir que se trata de uma alteração partidária da maior relevância e que tem de ter obrigatoriamente consequências práticas. Desde logo, não achar que tudo se mantém como antes.

Espero que os partidos clássicos, onde incluo o Bloco de Esquerda, não se sintam tentados ao típico: “nós já cá estamos há muitos anos”, e não se fechem sobre si próprios, numa conferência de líderes que terá de alargar horizontes e readaptar-se. Se não o fizerem correm o risco de repetir o triste exemplo dos taxistas quando não quiseram ver o óbvio na inevitável chegada da Uber. Tentar parar o vento com as mãos é para os tolos, mas neste caso é bem mais grave e perigoso porque se trata de André Ventura.

O episódio da porta da entrada não passa de um número - mais um - da pequena política. O diálogo com uma abordagem mais sensata do conclave dos líderes das bancadas teria certamente evitado a história mas não o fez, e Ventura não perdeu tempo: surfou a onda. Usou o ataque no arremesso. Desta história retiro sobretudo o que ela reflete, a atitude sobranceira e pouco aconselhável dos ameaçados. Por mais que discorde das ideias do Chega, a AR não pode esquecer que os votos que elegeram Ventura valem o mesmo que os atribuídos aos outros partidos. Não é por lhe impedirem a passagem ou o obrigarem a andar às voltas nos corredores que combatem os seus radicalismos. Estão sim a dar-lhes chama.

André Ventura pôs o pé na porta e será difícil voltar a fechá-la. A partir de agora tudo lhe serve: quer o ignorem, quer o ataquem. O desafio de Ferro Rodrigues, que não soube arrumar de vez a questão, é por isso exigente. O Parlamento terá de assumir os novos protagonistas alterando procedimentos e assumindo o embate. Se excluir os que chegam, alegando que as regras estão há muito definidas, estará a prestar um mau serviço. Mostra-se nervoso e autista. Temos de acreditar que a democracia, no seu conjunto, ditará o caminho: expelindo o que não serve, separando o trigo do joio. O combate aos extremismos, mesmo os fabricados para as audiências, faz-se com inteligência, bom senso e escrutínio, não com corredores de faixa única. Ventura ainda nem se sentou, e já conseguiu os holofotes. Calma, deixem-no entrar e mostrar o que vale. Para Ventura também não será fácil, a maior ameaça está na normalização da sua alegada diferença. Para já, não se pode queixar, os deputados mais desorientados fizeram-lhe o favor de o porem num canto…