Lourenço Medeiros

Opinião

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Editor de Novas Tecnologias

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A fotografia nunca mais será a mesma

Dentro dos pequenos ecrãs a imaginação é o limite (Lourenço Medeiros - Pixel 2)

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Lourenço Medeiros, editor de Novas Tecnologias da SIC, sobre as reflexôes num Pixel 4 e Huawei Mate 30 Pro.

Isto é, no fundo, um marco simbólico, uma constatação de facto de algo a que temos vindo a assistir progressivamente no dia a dia. Ninguém duvida de que a qualidade técnica estrita das grandes e caras máquinas fotográficas é melhor do que a dos nossos telemóveis. Ninguém?

Já não é bem assim. Quem sabe de técnica e quem usa parâmetros objetivos para avaliar estas coisas dirá que a frase que escrevi é verdadeira e traduz-se em coisas como a possibilidade de ampliar e muito uma fotografia, fazer um poster, ou mesmo um cartaz com definição boa ou aceitável. Mas se formos fazer testes cegos, e tenho visto alguns, muitas pessoas preferem as novas capacidades dos telemóveis às máquinas profissionais.

Para já são muito mais fáceis de usar, fazem tudo ou quase tudo sozinhos. A capacidade dos nossos telemóveis para analisar uma cena e devolver uma imagem que agrada de facto ao utilizador ultrapassa, de facto, o que as máquinas fotográficas são capazes de fazer. Isto tem uma razão de ser: os telemóveis topo de gama têm capacidades de processamento muito superiores à da maioria das máquinas fotográficas e estão mais otimizados para o gosto dos utilizadores.

Não é Photoshop, tudo pode ser feito em tempo real (Lourenço Medeiros)

Não é Photoshop, tudo pode ser feito em tempo real (Lourenço Medeiros)

Eu escrevi “para o gosto dos utilizadores” não para a qualidade técnica. Muitas vezes o resultado do tal clique com o telemóvel faria um bom profissional de fotografia contorcer-se de horror ao ver o resultado, mas o utilizador médio gosta do que vê. Isto acontece frequentemente com imagens noturnas ou com retratos em que os telemóveis introduzem tantos artefatos informáticos que destroem qualquer aproximação ao que seria uma fotografia bem feita, mas por iluminarem a cena ou aplanar as rugas, que existem, agradam à maioria. Mas nem tudo o que os telemóveis fazem é mau.

Este texto surgiu-me ao ver como funciona o novo Pixel 4 da Google que infelizmente não vamos poder comprar cá. É, sem dúvida, um dos melhores telemóveis em termos de fotografia, posso afirmar isto com base nas críticas fidedignas que já li e vi, e ao mesmo tempo, um dos que mais se afasta da fotografia tradicional.

É um contra luz, é mais fácil conseguir efeitos assim num telemóvel do que numa sofisticada máquina fotográfica (Lourenço Medeiros)

É um contra luz, é mais fácil conseguir efeitos assim num telemóvel do que numa sofisticada máquina fotográfica (Lourenço Medeiros)

O Pixel 4 depende cada vez mais da matemática, da informática, e menos da óptica e da física. Ao que parece, faz muito bem aquilo que já quase todos fazem como os falsos efeitos bouquet, sim, o efeito desfocado nos retratos é falsificado pelos processadores para imitar um conhecido efeito físico das lentes das máquinas fotográficas. Onde tenho mais dúvidas é no uso do zoom digital, mas a Google parece também muito confiante do que diz, mais uma vez os pixels a funcionar.

Mas, sobretudo na mesma imagem, é possível definir duas exposições diferentes, por exemplo, numa situação de contra luz podemos definir uma exposição para o céu e outra para os personagens em frente, de forma a jogarmos com o equilíbrio ou desequilíbrio entre estes. E esta ideia de duas exposições na mesma imagem muda tudo, é o tal símbolo de que começamos a tirar verdadeiro partido no bom sentido das capacidades digitais de captação.

Isto vai mudar tudo, e uma das consequências é que cada vez menos podemos acreditar naquilo que vemos. Tempos houve em que uma fotografia era uma fotografia e ponto, depois aprendemos que uma fotografia só o era no início e depois podia ser manipulada, podiam retirar um pessoa ou acrescentar algo que não estava lá. Agora, o último telemóvel da Huawei o Mate 30 Pro, com o processador Kirin 990 permite até alterar o fundo de um vídeo em tempo real. Podemos ter uma pessoa a falar à nossa frente e mudar o fundo, o local onde parece estar presente. Algo que até há muito pouco tempo só seria possível em caríssimos estúdios de TV, pode agora ser feito em tempo real num telemóvel.

A fotografia, e consequentemente a nossa imagem da realidade, nunca mais será a mesma.