Opinião

Já não há cinema musical?

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

"Hello, Dolly!”, um clássico absoluto do cinema musical, chegou às salas escuras já lá vão 50 anos. Depois disso, os filmes musicais não desapareceram, mas há muito que deixaram de ser um género regular nos mapas de produção dos estúdios de Hollywood.

Ah, o peso implacável da memória! É bem verdade que, por vezes, as efemérides têm algo de forçado ou postiço, como se o simples reconhecimento de um número “redondo” justificasse especial atenção a um evento ou um objecto. Em qualquer caso, não é fácil ficarmos indiferentes ao facto de “Hello, Dolly!” estar a comemorar meio século.

Foi, de facto, a 16 de dezembro de 1969 que o filme chegou às salas escuras dos EUA, rapidamente consolidando a sua imagem de marca. Que é como quem diz: a canção-título, interpretada por Barbra Streisand e Louis Armstrong [foto].

Era, afinal, a apoteose de um conceito de cinema musical inerente ao classicismo de Hollywood, para mais reunindo a figura lendária de Armstrong, um verdadeiro tesouro nacional, e Streisand, uma das grandes estrelas da época (“oscarizada” com “Funny Girl”, o seu filme de estreia, lançado um ano antes). Isto sem esquecer, claro, que a realização pertencia a Gene Kelly, precisamente um dos símbolos máximos da tradição do género musical, ligado a títulos como “Um Dia em Nova Iorque” (1949) ou “Serenata à Chuva” (1952), ambos co-realizados com Stanley Donen.

Pois bem, as memórias de “Hello, Dolly!” envolvem também o reconhecimento de um estado de coisas que, em boa verdade, não se alteraram muito nos últimos 50 anos. Apesar da sua sofisticação, o filme nasceu numa conjuntura em que o cinema musical já não existia como modelo regular de produção dos grandes estúdios da Califórnia.

Claro que, com maior ou menor felicidade, alguns musicais têm pontuado as décadas que se seguiram (este ano, há mesmo quem aposte na versão cinematografica de “Cats” como um sério concorrente a alguns dos principais Óscares). O certo é que, em 1969, “Hello, Dolly!” já não era o produto de uma regra de espectáculo, mas sim uma gloriosa excepção de produção.

Bastará lembrar que, no ano de “Hello, Dolly!, o grande vencedor dos Óscares foi “O Cowboy da Meia-Noite", de John Schlesinger, com Dustin Hoffman a Jon Voight a viverem uma saga trágica tendo Nova Iorque como assombrado cenário. Na prática, todos os modelos tradicionais estavam a dar entrada no museu. O musical não desapareceu. Mas tal como o “western”, por exemplo, cada novo musical vem imbuído de uma nostalgia que nos impele a (re)descobrir os clássicos. E a recuar 50 anos, se for caso disso.

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