Opinião

À espera dos Óscares (1)

"Estado de Guerra": Óscar de melhor filme atribuído em 2010

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Faltam cerca de duas semanas para serem conhecidas as nomeações para os Óscares referentes à produção de 2019: entre os especialistas de Hollywood, este é um tempo de muitas especulações e previsões.

Simplifiquemos. Ou melhor, evitemos o lugar-comum: a ideia segundo a qual os Globos de Ouro “antecipam” os Óscares resulta de uma contabilidade equívoca.

As coincidências nos premiados existem, como é natural. E tanto mais quanto, em várias categorias, os Globos “duplicam” as suas distinções, uma vez que atribuem prémios para “drama” e “musical ou comédia”. O certo é que a história ensina-nos que tais coincidências estão longe de ser uma regra absoluta.

Assim, por exemplo, se considerarmos apenas os anos da década que agora termina, em metade deles, o Óscar de melhor filme não foi atribuído a um filme que tenha ganho o Globo de uma categoria semelhante. Apenas um exemplo: na cerimónia realizada em 2018, os principais Globos foram para “Três Cartazes à Beira da Estrada” (drama) e “Lady Bird” (musical ou comédia); depois, foi “A Forma da Água” a arrebatar o Óscar de melhor filme.

Não por acaso, a entidade que atribui os Óscares — Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood — passou mesmo a separar os calendários. Assim, as nomeações para os Óscares só serão conhecidas depois da atribuição dos Globos: estes realizam-se no dia 5 de janeiro (madrugada de 6 em Portugal), estando o anúncio daquelas nomeações agendado para cerca de uma semana mais tarde, dia 13 (a cerimónia está agendada para 9 de fevereiro).

Será a 11ª vez que a Academia vai aplicar a regra, posta em prática a partir da cerimónia de 2010 (referente à produção do ano anterior), que permite que o número de nomeados para a categoria de melhor filme seja superior a cinco, podendo atingir uma dezena. Assim aconteceu nesse ano duplamente histórico: primeiro, porque, realmente, houve dez títulos a concorrer na categoria de melhor filme; depois, porque o vencedor, “Estado de Guerra” [foto], valeu também o Óscar de realização a Kathryn Bigelow, a primeira mulher (até agora, única) a obter tal distinção — eis o momento da sua consagração.

O alargamento da categoria principal para o máximo de dez títulos correspondeu a uma vontade de diversificação d3as características dos próprios nomeados, em particular abrindo a possibilidade de os “blockbusters” surgirem também a concorrer ao Óscar máximo. De facto, tal não se tem verificado de forma regular (podemos citar, o ano passado, a excepção de “Black Panther”). De modo algo desconcertante, a própria Academia só mais uma vez, logo em 2011, utilizou a prerrogativa de nomear uma dezena de filmes — nos últimos anos, os candidatos a melhor filme têm sido oito ou nove.

Seja como for, desta vez, o mínimo que se pode dizer é que não há um título que se destaque como líder nas previsões dos especialistas de Hollywood — sinal, por certo, de um ano de sedutora variedade.

No Gold Derby, um dos sites mais elaborados nessas previsões, contando com contribuições de analistas da indústria, jornalistas e críticos, os três títulos mais cotados para o Óscar de melhor filme são “O Irlandês”, “Era uma Vez… em Hollywood” e “Parasitas”. Este último, a produção da Coreia do Sul que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, tornou-se nos EUA um caso invulgar de sucesso comercial e prestígio artístico. “Parasitas” parece ser mesmo o principal candidato ao Óscar de melhor filme estrangeiro — aliás, de acordo com a nova designação estabelecida pela Academia, melhor filme internacional.