Opinião

À espera dos Óscares (2)

Ralph Fiennes e Kristin Scott Thomas, em "O Paciente Inglês" — Óscar de melhor filme, 1996

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

“O Irlandês”, de Martin Scorsese, irá simbolizar este ano uma certa condição de independência em relação ao sistema de Hollywood. Em boa verdade, os filmes produzidos nas margens dos grandes estúdios também pertencem à história dos Óscares.

Este ano, aconteça o que acontecer nas nomeações (13 janeiro) e na cerimónia dos Óscares (9 fevereiro), muito se falará das plataformas de “streaming”, em especial da Netflix. Por uma razão que, antes de ser cinéfila, é essencialmente económica. De facto, para o melhor ou para o pior, o consumo caseiro dos filmes passou a constituir um factor vital para todo o dinheiro que circula no cinema, da produção à difusão.

E não será necessário sublinhar que “O Irlandês”, de Martin Scorsese, ocupa um lugar de destaque em tal processo. Produzido pela Netflix, depois de uma década em que Scorsese não conseguiu obter o apoio financeiro de qualquer estúdio de Hollywood, “O Irlandês” constitui mesmo uma espécie de ovni industrial.

Apetece dizer que “O Irlandês” retoma a tradição das mais nobres referências do cinema independente. É certo que o seu orçamento foi de 159 milhões de dólares, mas importa não confundir “independência” com produções “baratas”… Trata-se, afinal, de recordar que, não poucas vezes, os independentes serviram de motor do próprio sistema de Hollywood.

O caso de “O Paciente Inglês”, de Anthony Minghella, é muitas vezes citado como uma espécie de símbolo ambíguo na evolução da coexistência de independentes e grandes estúdios. Desde logo, porque as suas nove estatuetas douradas — incluindo a de melhor filme de 1996 — serviram de consagração da Miramax, então a produtora “rainha” dos independentes (fundada pelos irmãos Bob e Harvey Weinstein, em 1979); depois, porque se é verdade que, nessa altura, a Miramax mantinha a sua linha autónoma de produção, não é menos verdade que integrava já o império Disney (adquirida pela Walt Disney Company em 1993).

O triunfo de “O Paciente Inglês” constituiu um especial momento de consagração para o produtor Saul Zaentz (1921-2014), ele que já tinha dois Óscares de melhor filme obtidos com “Voando sobre um Ninho de Cucos” (1975) e “Amadeus” (1984) — eis o seu discurso de agradecimento na cerimónia do Shrine Auditorium, Los Angeles, a 24 de março de 1997.

Na memória dos independentes no interior da história dos Óscares, outra das referências mais emblemáticas provém dos prémios referentes à produção de 1971. Foi nesse ano que surgiu “A Última Sessão” (título original: “The Last Picture Show”), segunda longa-metragem de Peter Bogdanovich, um dos mais talentosos, e também mais esquecidos, autores da geração dos chamados “movie brats” (Coppola, De Palma, Scorsese, etc.).

Produzido por uma pequena empresa, BBS Productions, “A Última Sessão” adapta o romance homónimo de Larry McMurtry sobre um grupo de jovens, nos anos 50, numa cidadezinha esquecida dos EUA, assombrados pela possibilidade de mobilização para a guerra da Coreia. É um retrato íntimo das ânsias e dores de toda uma geração, tendo servido também de revelação de um notável grupo de jovens actores, incluindo Jeff Bridges, Cybill Shepherd e Timothy Bottoms.

Nos Óscares, não foi o vencedor principal: a distinção de melhor filme do ano pertenceu a “The French Connection/Os Incorruptíveis contra a Droga”, de William Friedkin (que também arrebatou o Óscar de realização). O certo é que “A Última Sessão” conseguiu um total de oito nomeações, acabando por vencer nas importantes categorias secundárias de representação, com Ben Johnson e Cloris Leachman. Curiosamente, nas bilheteiras, em termos proporcionais, o filme de Bogdanovich ficou como um dos mais rentáveis de sempre entre os independentes: custou pouco mais de um milhão de dólares e rendeu mais de vinte.

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