Opinião

A insustentável leveza da vergonha

Há muitos que, agora, querem reescrever a história, eliminar o passado, e sentem «desconforto» com as notícias.

São aqueles que pedem para apagar ou não publicar imagens onde são segundas ou terceiras figuras, sempre sorridentes, ao lado da protagonista, a quem - porque a convidaram para os mais diversos eventos - estenderam o tapete vermelho, abriram portas e fizeram discursos elogiosos.

Desde domingo, coram de vergonha.

Anunciam demissões e investigações, convidam à saída, escondem-se dos holofotes e esperam, discretos, que ninguém se lembre que eles existiram, que abriram as portas, que apareceram nos retratos, que deram palco e brilho ao glamour da protagonista.

Ontem alguém perguntava:

- «E isto não se sabia já há muito tempo?»

Sabia-se. Desconfiava-se.

Mas, numa conversa de café é permitido dizer tudo e especular sobre o resto, ter certezas absolutas e verdades infalíveis.

O que mudou, então?

As provas, os documentos, as ligações, os depoimentos, o esmiuçar e o entrelaçar dos negócios, os legais e os obscuros, os cristalinos e os escondidos.

Mas há uma diferença entre o «cidadão comum» e medianamente informado e toda essa outra gente, políticos eleitos incluídos, que serviram de fantoches, politicamente úteis, intermediários, advogados, fiscalistas, parceiros, testas de ferro, criadores de empresas fantasma e por aí fora.

Esses - estes - que agora coram e se escondem, não respondem nem aparecem e pedem para sair da fotografia.

Esses - estes - tinham obrigação de saber. De perceber. De conhecer. De ter investigado. De desconfiar. De perguntar.

Mas a conta bancária a subir, as mordomias, o cheiro do poder, o deslumbramento e a vaidade, as fotografias nas festas - que agora gostavam que nunca tivessem existido - levaram a um encolher de ombros. A relativizar. A ver só a parte bonita.

E, agora, os ratos abandonam o navio.

É a insustentável leveza da vergonha.

Bem podem corar. Não lhes serve de nada.