Opinião

Quando Antonioni filmava no Vale da Morte

"Zabriskie Point" (1970): memórias dos tempos da contra-cultura

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Depois dos seus filmes em Itália, Michelangelo Antonioni trabalhou várias vezes noutros países: rodado nos EUA, “Zabriskie Point”, estreado há 50 anos, é uma referência marcante na sua deambulação pelo mundo das imagens e sons.

Por contraste com o intimismo de Federico Fellini (1920-1993), podemos dizer que Michelangelo Antonioni (1912-2007) foi um dos mestres do cinema italiano que, relativamente cedo, prolongou o seu trabalho através de muitos cruzamentos com outros países e diferentes culturas. Lembremos, por exemplo, que logo após “O Deserto Vermelho" (1964), escalpelizando a solidão nas novas paisagens industriais da Itália, Antonioni partiu para Inglaterra para dirigir aquele que ficaria como um dos símbolos mais cristalinos dos temas, ansiedades e contradições dos “sixties”: “Blow-Up” (1966), com David Hemmings e Vanessa Redgrave.

Pois bem, se as efemérides podem servir para avaliar os valores, e também as dinâmicas, das nossas memórias, vale a pena lembrar que “Zabriskie Point”, uma das mais estranhas, e também mais geniais, divagações “estrangeiras” de Antonioni está a fazer 50 anos — rodado a partir do convite daquele que era, na altura, um dos grandes estúdios de Hollywood (Metro Goldwyn Mayer), a sua estreia americana ocorreu no dia 9 de fevereiro de 1970.

“Zabriskie Point” é um daqueles objectos de cinema que não se deixa encerrar numa sinopse de “factos” ou “peripécias”. Digamos que a história do encontro dos jovens Mark Frechette e Daria Halprin se desenvolve num duplo sentido: primeiro, eles encarnam uma ideia de entrega amorosa que parece ter tanto de radical como de acidental; depois, a sua viagem até à zona inóspita de Zabriskie Point, no deserto do Vale da Morte, leste da Califórnia, vai transformá-los em peões de uma parábola sobre as ilusões do presente e, no limite, a decomposição de todas as relações humanas. Vivia-se, afinal, o tempo desesperado, mas muito criativo, da chamada contra-cultura.

Antonioni sempre foi um céptico, é verdade. Mas não por banal ostentação da sua solidão. Antes porque a sua desencantada visão do mundo o levava a coleccionar os sinais do tempo como quem faz o inventário jornalístico do estado do mundo — e sempre, muito em particular, da possibilidade (ou impossibilidade) de um homem e uma mulher se relacionarem para lá da hipocrisia social, na verdade dos seus gestos, pensamentos e desejos.

Curiosamente, as qualidades de “Zabriskie Point” enquanto testemunho histórico envolvem a integração de muitos temas musicais que, de facto, definem a sensibilidade de toda uma época. Por alguma razão, a banda sonora de Zabriskie Point é frequentemente citada como um álbum marcante na história das relações entre cinema e música. E compreende-se porquê: as respectivas canções, interpretadas, entre outros, por Pink Floyd, Grateful Dead e The Youngbloods, definem as ideias, medos e utopias de um tempo de dramática reinvenção afectiva e social.

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