Opinião

Fofinhos

Rui Santos

Rui Santos

Comentador SIC Notícias

Oiço Donald Trump a insurgir-se contra o jornalista da NBC News, que apenas pretendia saber do presidente dos Estados Unidos qual seria a sua mensagem para os americanos assustados com a propagação da Covid-19, e achava ser impossível um tão grande desnorte e tamanha ignorância revelados pelo ‘líder’ norte-americano.

Não podemos ignorar o que se passa em Portugal, e fazer tudo o que está ao nosso alcance, em contenção, para que o vírus não encontre forma de se propagar ainda mais, mas é imperativo não nos desligarmos daquilo que se está a passar no Mundo, e principalmente, pelas razões óbvias, na China, nos Estados Unidos, em Itália, no Reino Unido e em Espanha.

A Covid-19 não é uma pandemia localizada; é um surto à escala global e a Europa já sabe que o tempo da sensação de que o continente estava protegido contra os principais males que atingem a humanidade desde a Segunda Guerra Mundial acabou há alguns anos. O portão da Europa nunca foi totalmente um escudo inviolável, mas criámos a rotina de ver à distância muitas das desgraças a acontecerem noutros continentes ou, pelo menos, longe de casa e, nesse contexto, habituados a um ronronar tipicamente português, relativizámos tudo e, ainda hoje, surpreendidos por um inimigo silencioso, invisível, mas muito ameaçador e perigoso, vemos algumas manifestações de imbecilidade perante as exigências destes novos tempos.

A imbecilidade externa não nos pode aliviar, porque ela — sem darmos conta — infiltra-se e torna-se viral. Os elos da corrente infectada podem estar em qualquer lado e não vale a pena acharmos que estamos protegidos, porque não estamos.

O caso de Bolsonaro é tão repugnante como o de Trump, e, mesmo achando que o nosso Governo foi lento a reagir e estando perante um ‘estado de emergência’ elegante e fofinho, prefiro mil vezes a ‘duploika’ Costa-Marcelo na gestão desta crise — e assusta-me perceber que, estando também dependentes da responsabilidade dos líderes do globo terráqueo, seja possível achar posições políticas tão irresponsáveis como aquelas que emanam do Brasil e dos Estados Unidos.

Fofinho não foi o presidente da Liga, Pedro Proença, perante o primeiro-ministro, António Costa. Espetou as garras como um animal feroz, assumindo-se como uma espécie de guardião de um sector que, às segundas, quartas e sextas, pede a intervenção do Estado, não sabendo muito bem o que fazer com as suas virulências, e às terças, quintas e sábados acha-se portador de uma integridade inviolável e de uma arrogância também ela feroz. Há cada vez menos tempo, menos lugar e menos paciência para torres de marfim — e seria útil, na verdade, que este tempo nos levasse à conclusão de que precisamos de percorrer, todos, outros caminhos.

Os governos precisam de ser mais responsáveis na identificação dos problemas do futebol, que mexem com o país. O futebol precisa de ser mais activo na cura das suas maleitas para se poupar à condenação pública de que é um ‘estado dentro do próprio Estado’. É um debate que é preciso fazer, mas este não é o tempo certo para isso.

Inevitavelmente fofinha foi também a UEFA que determinou o adiamento do Europeu para 2021, colocando a batata quente nas Ligas nacionais, no sentido de encontrarem datas para concluirem os seus campeonatos. A sensatez às vezes também tem algemas, mas estas algemas são romanticamente marotas. Há previsões optimistas, mas ninguém sabe como estará o Mundo, a Europa e cada um dos países do globo terráqueo no final de Maio.

O futebol também dá muito jeito aos políticos e à política, há uma pressão económica sobre os estados e as empresas, mas o mais difícil é arranjar um plano de contingência politico-económico para superar, no curto-prazo, as consequências deste drama. Os jogadores não podem ser carne para canhão e é bom que se perceba que os jogadores estão para o futebol como a matéria-prima está para os restaurantes. Há questões de preservação (e de preparação) que não podem ser alienadas. Os jogadores não são máquinas. São seres humanos como nós.

Não podemos ser fofinhos só porque queremos um campeão. Um campeão à força. É tempo de se perceber, finalmente, que há outros valores mais importantes. É preciso pôr termo ao ensaio desta cegueira.

  • Estado de emergência vai ser renovado. Desemprego histórico em Espanha

    Coronavírus

    O decreto para renovar o estado de emergência em Portugal é discutido e votado esta manhã pela Assembleia da República. Só ao final do dia é que deve ser comunicado ao país, por Marcelo Rebelo de Sousa. Portugal regista 187 mortes e 8.251 casos de Covid-19. Espanha teve, em março, a maior subida de desempregados num só mês desde que há registo. Siga aqui ao minuto as informações sobre a pandemia.

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    SIC Notícias