Opinião

Ninguém escapará ao contágio!

Defendi desde a primeira hora a declaração do Estado de Emergência.

Perante a gravidade da crise, mais vale pecar agora por excesso do que lamentar, mais tarde, o que devíamos ter feito. Tenho aliás pouca paciência para os fundamentalistas que logo apontaram para os perigos da declaração preventiva do decreto. Se os números de mortos e infetados se tornarem ainda mais graves, calamitosos mesmo, pergunto se não estaríamos a abrir caminho para novos perigos e figuras, populistas e antidemocráticas, que não hesitariam em aproveitar-se da mortandade e da ineficácia das autoridades.

Assim sendo, julgo que no caminho sanitário tomámos a direção certa. Basta olhar para o Reino Unido e rapidamente se percebe como é fácil ficar no meio da estrada.

Para grandes males, exige-se autoridade, rumo e clareza. Sei que há falhas: faltam meios e pessoas. Mas vão continuar a faltar. Portugal é o que é e o nosso SNS está como está, por mais que discutamos o nível de preparação do país, julgo que este ainda não é o tempo e acredito também que temos de ser honestos nessa avaliação: nenhum país, como a realidade nos está a mostrar, está ou podia estar preparado para avalancha desta magnitude. Não precisam de ir longe, olhem para Espanha.

É claro que nada disto justifica que se baixe o nível de exigência e que não se possam apontar falhas na antecipação. O Governo tem de agir em vez de reagir. É preciso aprender com a experiência dos outros.

Não há tempo para amadorismos, nem as autoridades podem deixar-se cair em questões pouco claras. A polémica com os testes que existem em Portugal ou o relatório da DGS que teve de ser corrigido a meio da tarde, são casos pouco recomendáveis em plena crise – sobretudo quando essas mesmas autoridades são, neste momento, tão valorizadas pela população como mostra a sondagem da SIC/Expresso. Podem garantir-nos vezes sem conta que não estão a mentir, mas este tipo de confusões deixam dúvidas que torpedeiam a confiança. Se o povo está a colaborar de forma tão exemplar e voluntária, é bom que o poder político não falhe.

Na frente sanitária, como já todos percebemos, o caminho será longo e ainda cheio de interrogações. E é importante que não se criem falsas expectativas com os números do dia – é mesmo para ficar em casa! Já na frente económica, as coisas parecem-nos mais claras, ou melhor, profundamente mais negras. Aos poucos, percebe-se na comunidade uma espécie de transferência das preocupações da saúde para a economia. E não é para menos. Os tempos da troika ainda estão frescos e dolorosos. António Costa, que vingou e lucrou politicamente com a saída crise, terá de gerir um país que cairá num poço ainda mais fundo. E escuro.

Agora sim veio mesmo o diabo, em forma de vírus. A ironia de tudo isto: um ser minúsculo que imobiliza um planeta inteiro. Não há otimismo irritante nem outro qualquer que nos anime.

Falo com amigos e conhecidos, alguns são pequenos empresários outros trabalham em empresas, contam-me que nos últimos dias estão agarrados a balanços e folhas de cálculo. Entregues a cenários de lay-off ou mesmo de não renovação de contratos. Já há quem fale em falência. O desemprego será dramático. A realidade não dá alternativa. E o Governo que na frente sanitária foi mais firme, aqui surge trôpego gerando desconfortos e críticas. Veja-se o modelo de lay-off simplificado que já vai na terceira versão. Custa-me a perceber que um ministro tão experimentado junto das empresas como Siza Vieira, tenha gerido desta forma um processo que exigia mais realismo e menos burocracia e politica.

Bem sei que esta é uma crise que ultrapassa a gestão doméstica, é demasiado grande para pensarmos que o Governo pode e vai resolver tudo. Mais do que nunca, a Europa estará à prova. De que nos serve fazer parte de uma União que se mostra tão desunida nesta tragédia comum? É dramático que esteja cada um por si na busca de material para os hospitais. É chocante a falta de solidariedade dos países mais fortes com a Itália. Esta não é uma crise das dívidas soberanas, dos países periféricos, dos que gastam tudo em "copos e mulheres" - como nos descreveu Dijsselbloem -, esta é uma tragédia partilhada que exige uma solução europeia. Se assim não for, resolvida a crise sanitária, as fronteiras bem podem continuar fechadas.

A União Europeia terá perdido o seu sentido.

Ainda acha que não vai ser contagiado?