Opinião

Por estes dias #dia12

Peter Andrews

Nihada

Nihada abriu-me a porta de casa e disse:

-Bom dia!

com aquele sotaque de leste, tão característico e depois:

-como estás?

Parecia que estava em Portugal, a chegar a casa de alguém conhecido.

Mas não.

Nihada vive em Serajevo, capital da Bósnia.

Nunca tinha estado em Portugal.

Mas sabia de cor cantigas inteiras que tinha decorado de tantas vezes as ouvir na rádio.

A Antena 1 «dava» na Bósnia, muito por causa dos militares e polícias que ali estavam em missão.

E ela sabia tudo sobre futebol, política, nomes de cantores e de artistas.

Chegava-lhe tudo pelo éter e ela devorava portugalidade.

Nihada tinha ficado em casa, presa, sem poder sair.

Morava mesmo na avenida dos snypers, quando começou a guerra da Bósnia e o cerco a Serajevo.

Tinha sido uma mulher alta, elegante, loira, de olhar expressivo e uma força extraordinária.

Era, quando me abriu a porte e disse:

-bom dia!

uma mulher envelhecida e mal-cuidada, vergada ao peso do isolamento, da guerra, das privações, da quase loucura de ficar sozinha.

Em três anos e pouco, tinha envelhecido trinta.

Um dia, entrou-lhe, literalmente, casa adentro, um polícia.

Português. Em missão das Nações Unidas.

Havia de voltar mais tarde, fardado mas já não em missão.

Durante mais de dois anos, ele e Nihada viveram um amor estranho.

Um amor de guerra e de isolamento.

De circunstâncias.

Ela agradeceu por ter companhia, por ter um namorado, um homem, um companheiro, um protetor.

Ele levava-lhe comida, água, relatos do que se passava por toda a cidade, histórias dos perigos que corria.

Aliás, ir ter a casa dela ao fim do dia era, em si, uma história de coragem.

Arriscava a vida fora da base para, à noite, poderem estar juntos e garantir que havia algo para por na mesa dela.

Durante mais de dois anos, a ligação de Nihada com o mundo, visto do seu minúsculo apartamento de Serajevo, ela ele.

De dia, ela ficava a ouvir a rádio.

«Um, dois, três, quatro, cinco minutos de jazz» tornou-se o seu programa favorito. Mas à custa da repetição, foi aprendendo a comunicar em português.

E queria saber histórias daquele pedaço de terra de que nunca tinha sequer ouvido falar.

De como eram as pessoas, os lugares, de como seria viver num país sem guerra, sem divisões étnicas ou religiosas, onde tudo parecia perfeito e tão diferente da sua Serajevo, agora transformada num monte de escombros, onde não se podia sair à rua sem correr risco de vida.

E, Portugal, tinha-lhe dado aquele homem.

A única pessoa com quem falava. Que a impedia de enlouquecer e, no fundo, a mantinha com algo parecido o mais possível com «uma vida normal».

Um dia ele acabou a missão, voltou a casa e Nihada ficou.

Fechada em casa, sem forma de garantir comida, água, sem ninguém que atravessasse a cidade por ela, sem ninguém com quem falar.

Continuou a escutar a rádio, portuguesa.

Talvez um dia, nas notícias, nas entrevistas, voltasse a ouvir a voz daquele homem que tinha amado.

Nunca aconteceu.

Nihada não morreu de fome, da guerra, ou da falta de amor.

Morreria de solidão, ainda que estivesse viva quando a conheci e me perguntou, depois do

-bom dia!

-como estás?

-Queres um café?

Leia AQUI mais Opinião