Opinião

Por estes dias #dia 14

João Relvas

A minha continência, meu general

O homem que «não sabe sorrir» saiu do gabinete proporcionado pela república, para dizer duas ou três coisas básicas, certeiras e tão simples que não precisavam de ter vindo de alguém especialista em tática e estratégia.

Militar.

O homem que recusou ser Marechal, o general que nunca estará na reserva, o militar que foi bem amado, aclamado e, depois, esquecido e tratado como uma figura distante da História, como se já não estivesse vivo, sentou-se na televisão e disse frases curtas.

O general, de 85 anos, deixou dito que se estivesse infetado, cedia o «seu» ventilador a um homem com família e filhos para cuidar.

Claro que nenhum médico obedeceria à ordem deste general. Mas a proclamação, a vontade e o sentido do dever são, só por si, uma medalha.

Disse mais, o general.

Que, nesta guerra - não foi assim que lhe chamaram ? - os operacionais misturaram a linha da frente com a da retaguarda.

Qualquer cabo do exército sabe que se é uma guerra, a linha da frente deve estar... à frente, e tudo o resto à retaguarda.

Para suporte, apoio e para dar espaço ao essencial e deixar cá atrás o acessório.

Ora, no princípio desta guerra, as duas linhas de combate estavam no mesmo lugar, sem se perceber que a linha da frente é mais imediata, e a retaguarda mais resguardada.

Um combate com duas linhas não se trava com proximidade entre elas.

O general, espartano, frugal, que nunca deixará de ser um militar mesmo quando se apresenta de fato e gravata como se quisesse parecer um civil, um dos poucos homens desta república que recusou honrarias, o general está como sempre esteve.

Grave, sério e lúcido.

Mas, talvez porque fala pouco e nunca sorri, tem a capacidade de, longe dos palcos, quando aparece, acerta e faz-nos pensar.

«Eanes cumpre», dizia um dos cartazes que havia de levar o Major a Presidente.

Hoje, senhor general, junto os meus calcanhares e faço-lhe continência.

(eles não vão perceber esta referência, mas eu sei que o senhor sabe, e este texto é para si).

Leia AQUI mais textos de Opinião de Pedro Cruz