Opinião

Olá Humanidade

Sábado, cinco da tarde no Rossio, duas palavras surgem enormes na imponente fachada do Teatro Nacional Dona Maria, de portas fechadas há semanas. Lugar onde se lembra que a ficção imita a realidade, numa altura em que a realidade parece ultrapassar qualquer ficção nas nossas vidas.

"Olá Humanidade", de cima abaixo, as letras entrecortadas pelas colunas do edifício, à vista de quase ninguém, a não ser uns quantos que seguem a pé para o comboio ou autocarro ou que, como eu, contornam a praça dentro do carro numa das muito raras saídas. Esta para ver da rua o rosto de quem nos acena da janela e com quem trocamos umas quantas palavras para aliviar a distância de conversas ao telefone.

Nestes tempos, a humanidade que o Dona Maria cumprimenta está concentrada no mesmo, virada para o mesmo lugar, com as mesmas vontades. Que tudo isto acabe depressa, que nem nós nem os nossos sejamos apanhados, que consigamos sair daquilo que desejamos seja apenas um pesadelo que tivemos à noite a cada dia que acordamos de manhã.

Desta vez, não ficam dúvidas de que o que sentimos aqui é o mesmo que todos os outros sentem em cada parte do mundo.

Somos espanhóis quando vemos os que viveram ou cresceram com a guerra civil e a segunda guerra mundial e souberam o que é a fome e a ditadura partirem sem o consolo de alguém que lhes fale ao ouvido, que os abrace ou lhes pegue na mão.

Somos italianos quando ouvimos médicos e enfermeiros extenuados a ter de optar por quem vai ter uma melhor chance de sobreviver com o próximo ventilador que ficar disponível.

Somos ingleses quando sabemos que quiseram fazer a experiência de deixar o vírus fazer o seu caminho desgovernado.

Somos angolanos ou venezuelanos quando pensamos no que pode vir a acontecer por lá.

Somos colombianos quando o confinamento os faz temer a fome.

Somos indianos porque a fome já era uma certeza antes disto.

Somos refugiados quando o vírus começou a atingir-lhes a vida suspensa nos campos onde se amontoam.

Somos chineses quando estacamos perante o silêncio de 3 minutos por todos os mortos.

Somos americanos quando percebemos que em Nova Iorque já sabem o que aí chegou mas à frente da nação está quem olha só para si em primeiro e até ao último lugar.

Somos brasileiros perante o desafio cobarde de quem sente que estará a salvo e sabe que vão ser os mais humildes os primeiros a cair.

E tudo isto a que assistimos, incrédulos e com pavor, pode ser aplicado a qualquer país por ordem diferente e numa escala diferente.

Uma ínfima partícula deste universo brinca às escondidas com uma imensidão de cientistas, apanhou-nos de surpresa e faz-nos perceber que pequenos somos. Mas também que grandes podemos ser.

Nascem ideias, surgem iniciativas, aplaudem-se os bravos que estão na linha da frente, canta-se a janelas, em varandas, multiplicam-se vídeos sem fim e sem parar, para rir, para chorar, para chamar a atenção, para avisar, para não perder a esperança, para acreditar.

Não há ninguém que não tenha medo. Por si próprio ou por alguém.

O medo torna-nos vulneráveis. No meio desta desgraça mundial, tantos continuam a aproveitar para fazer o seu caminho obscuro com todos os receios de quem conseguem convencer. São os do costume.

Podemos não ter a certeza de quem são mas sabemos quem são. Os que procuram dividir, criar ódios, fazer parecer simples o que é complexo. Têm saber, truques, poder, ferramentas ao dispor, hoje mais do que nunca, para fazer alastrar a mentira, aumentar temores, corroer a liberdade, diminuir as democracias, iludir, para nos virar uns contra os outros. Contam com a credulidade, a insatisfação, a frustração, o egoísmo e a ignorância para se alimentarem e crescerem. Mas eles são os mais ignorantes. Incapazes de sair de si próprios e perceberem o significado da palavra humanidade.

Enquanto esses fazedores do mal continuam laboriosamente a levar os seus planos por diante, surgem neste tempo demasiadas evidências que muitos não queriam ver. Ou fingiam que não viam. Em primeiro lugar, que o direito à saúde não pode ser uma junção de palavras numa qualquer constituição mas um direito. Ponto. Para o qual todos devemos contribuir.

Depois, que se os políticos e os governantes não disserem a verdade que lhes é exigida pelo lugar que ocupam vai custar-lhes, a eles e a todos nós. Que a União Europeia se escreve com a palavra união ou vai fragilizar ainda mais o mundo ameaçador que temos visto surgir. Que é sempre de desconfiar de regimes de ditadura, que só contam o que tem mesmo de ser porque uma pandemia não se consegue esconder. Tornou-se também mais evidente que os mais pobres ficam sempre no fim da fila mesmo quando se trata de um país e mesmo quando se avança com muitos mihões para comprar equipamento médico.

Muitos começaram a perceber que a polícia está afinal mais próxima do que julgavam e que é capaz de contribuir e ser indispensável. Tal como as Forças Armadas, aí estão elas a sair dos quartéis. Para não falar do reconhecimento a todos os que diariamente entram em cada hospital do país para trabalhar, mesmo quando as condições escasseiam, e de todos os outros que saem para a rua para garantir que a maioria fique em casa.

E quando olhamos para dentro das casas?

Não faltam relatos e análises de como os filhos passaram a ter os pais mais tempo com eles, de como os pais estão a descobrir os filhos, de que os amigos começaram a importar-se mais uns com os outros, os vizinhos passaram a dar e a receber mais sorrisos, tal como a senhora da caixa do supermercado, o senhor da farmácia ou o polícia que se cruza connosco. Boa parte dos que têm mais idade e se pensavam sozinhos recebem telefonemas a perguntar-lhes se precisam de alguma coisa.

Em certos lugares do planeta, os céus descobrem-se sem nuvens carregadas de poluição, as águas recuperam a transparência de memória esquecida e até os pássaros se ouvem com maior distinção. O tempo passou a ser apreciado de outra maneira. Tanto para os que continuam as rotinas como para aqueles que as mudaram completamente.

As pequenas e insignificantes coisas ascenderam a um estatuto de grandes privilégios de que não tínhamos dado conta.

Também os jornalistas passaram a ser mais procurados e valorizados porque numa altura destas se quer distinguir a verdade da mentira, porque se quer saber mais e melhor. Os jornalistas fazem o que podem, não saem para reportagem com o mesmo à vontade de antes, podem trazer o vírus ou transmiti-lo a algum entrevistado, ganharam gestos diários que nunca imaginaram, como desinfetar a secretária e o telefone, dizem olá aos colegas de longe e outros fecharam-se em casa ligados às redações pela tecnologia.

Parte deles redescobre para que serve fazer jornalismo, outros tiveram ainda mais a certeza, outros perceberam agora, ou só agora, outros nem sabiam que iriam descobrir.

Fazer jornalismo só faz sentido se for sempre para os outros e pelos outros, por aquilo que queremos ser como sociedade, país, nação, humanidade.

Olá humanidade, anuncia a fachada do Dona Maria, estamos aqui, estamos todos aqui. E já que assim é, daqui para a frente devemos tentar consertar aquilo que, uns muito mais do que outros, fomos adoecendo gravemente na ambição da velocidade dos dias, nessa correria por alcançar mais, sempre mais, sem parar, sem olhar a quê, sem olhar a quem. Sem nos importarmos com os que são e sentem exatamente como nós. Temos a oportunidade de compreender essa palavra que nos une, humanidade.

Este vírus não tem nada de bom. Nada. Traz-nos desafios e obstáculos que nem sequer ainda conseguimos alcançar. Mas dá-nos uma oportunidade. Seremos capazes de aproveitá-la?

Especial Coronavírus