Opinião

Entrámos na fase do "casinovírus" 

Rui Santos

Rui Santos

Comentador SIC Notícias

Rui Santos diz que o futebol nunca saiu da fase da "roletavírus", por causa da pressão económica. O comentador da SIC diz que a entrevista de António Costa ao Expresso revela cuidados especiais com o regresso do futebol, destacando uma mensagem em particular.

À entrevista concedida ao Expresso pelo primeiro-ministro António Costa pode chamar-se uma espécie de 'guião-coronavírus'. Muito útil para perceber as perceções e as orientações políticas.

Já percebemos que, no final deste mês, vai começar a primeira fase do desconfinamento sem sabermos se vai haver uma segunda, até ao regresso da 'normalidade', seja lá o que isso quer dizer, até essa adiada sine die, se é que na verdade vai chegar.

Começamos a ouvir frequentemente que "temos de conviver com o vírus", com a convicção de que ele pode estar em qualquer lado e continua a ser uma ameaça para todos.

Podemos dizer, provavelmente porque soubemos fechar as fronteiras terrestres a tempo de evitar consequências maiores e ter havido uma resposta globalmente positiva da população ao apelo de isolamento social, que saímos vencedores deste primeiro mês, sob as restrições impostas pelo estado de emergência.

Tirando alguns casos de 'infantilidade política', Governo e Oposição foram genericamente responsáveis: o controlo sanitário e o foco na vida das pessoas foi uma aposta indiscutível e, nesse aspeto, fomos campeões e 'ganhámos' o campeonato a países mais fortes, ao ponto de nos apontarem como 'exemplo', o que não deixa de ser relevante e notável, porque elogios ao País temos ouvido basicamente pelo desempenho das Seleções Nacionais e de Cristiano Ronaldo.

Sabíamos, todavia, que a prevalência da saúde sobre a pressão da economia não poderia durar muito. E sabíamos que, mais tarde ou mais cedo, ter-se-iam que correr maiores riscos sob pena de entrarmos, economicamente, numa espécie de corredor da morte.

Na primeira fase de desconfinamento, o perigo maior é o da desresponsabilização individual e esse pode comprometer o efeito do confinamento. Perigosíssimo.

Vamos entrar agora na fase do "casinovírus" ou da "roletavirus", porque é de elementar compreensão que o cansaço acumulado por aqueles que têm estado em casa, a somar aos problemas de emprego, produtividade e sustentabilidade, vai provocar uma pressão e um grau de incerteza supletivos sobre o sistema de saúde, com consequências que neste momento não conseguimos determinar.

O futebol nunca quis saber a fundo do 'guião-coronavírus', porque nunca conseguiu abandonar. mentalmente, a fase do "casinovírus" ou da "roletavírus", considerando o impacto da paragem competitiva na respetiva indústria.

Passou a mensagem de que é preciso jogar, em Maio, em Junho, em Julho, em Agosto, seja lá quando for, para terminar a presente época e começar a próxima… "quando Deus quiser".

A antecipação de receitas pagas pelas principais operadoras de telecomunicações reforçou este poder que se tornou inegociável. A NOS é o ventilador que a maior parte dos clubes portugueses necessita para respirar. Sem esse oxigénio, a morte é mais que certa.

O jogo-futebol, tal e qual como o conhecíamos nas suas representações endógenas e exógenas, está adiado. Não sabemos até que ponto vai ser recuperado e quando, naquelas suas características que haviam sido padronizadas.

Sabemos que já tínhamos, pelas deformações sistémicas, mais do que futebol, uma espécie de modalidade adaptada chamada "futebolha". O que vem a seguir, e num período de transição para qualquer coisa neste momento imprevisível e inalcançável, será uma deformação do futebol gerada em laboratório: jogos sem público, jogadores a treinar como se estivessem numa nave espacial, qualquer coisa que 'salve o negócio'.

Preparem-se: está a nascer uma nova modalidade desportiva.

É natural que, na entrevista ao Expresso, António Costa tenha revelado 'cuidados especiais' com o futebol, poupando nas palavras. Contudo, quando se referiu aos 'eventos culturais e desportivos', genericamente, disse tudo: "Temos todos de nos compenetrar que durante o próximo ano, ano e meio, não vamos viver como vivíamos antes do mês de Fevereiro. Isso significa que temos de dar passos sem ansiedade e com prudência. O risco que não podemos correr é de termos novamente uma situação em que a pandemia não está sob controlo".

Espero sinceramente que estas palavras sejam bem digeridas pelos portugueses e… pelos agentes desportivos.

  • Espertezas saloias 

    Opinião

    Rui Santos retoma o tema do regresso aos treinos da primeira equipa profissional (Nacional) que decidiu fazê-lo à margem de uma posição concertada, defensora da verdade desportiva. O comentador da SIC diz que o decreto-lei 2-B/2020 é um paraquedas… perigoso

  • "Falem verdade e não nos enganem!"
    5:31

    Opinião

    Rui Santos comenta o regresso do Nacional aos treinos. O comentador da SIC entende que a retoma dos treinos, por decisão individual e contra as recomendações do Governo, não faz sentido nenhum e defende uma posição colectiva da Liga, em nome também da verdade desportiva

  • A desobediência do circo

    Opinião

    Rui Santos escreve sobre o documento patrocinado pela Liga Portugal sobre ‘Retoma Progressiva à Competição’. O comentador da SIC acha-o ‘ridículo’ e uma peça de ‘ficção científica’, chamando a atenção para o anúncio feito pelo Nacional em regressar aos treinos já na segunda-feira e pede a intervenção do Estado