Opinião

O mais difícil

Não é aconselhável, até mais ver, reunir milhares de peregrinos em Fátima, como não é adequado encher o hemiciclo parlamentar.

À boleia de uma questão pertinente, soltaram-se alguns lobos e descentralizou-se o debate. O que está em causa não é o direito e o dever, dadas as circunstâncias, de assinalar o dia da liberdade ou o dia do trabalhador, mas perguntar se as condições em que serão assinalados significam que, noutros contextos, possa fazer-se já o mesmo. "A abertura, gradual, da sociedade e da economia, atendendo a tempo, a modo, a territórios, a áreas e a setores", como diz o Presidente da República.

Cada caso é um caso e há dimensões distintas. Mas se há vitória de abril, ainda e sempre em curso, é a de promover e defender a igualdade e a cidadania, nos direitos e nos deveres, com responsabilidade e transparência.

Liberdade e Trabalho vão celebrar-se quando se debate a reabertura social, com a pandemia a exigir medidas de cautela profilática. Assim, da mesma forma, seria de equacionar noutros espaços de organização e pertença social - com segurança, responsabilidade monitorizada e verificável - os direitos subjacentes, nomeadamente os da liberdade religiosa e de culto. Não sendo possível ter garantias de segurança, mantenham-se obviamente encerrados ao público.

Vai ser o tempo de "conviver com o vírus em atividade precavidamente aberta, sabendo que a situação está controlada", como afirma o chefe de Estado. Estamos noutra fase da equação. "Ainda falta o mais difícil". Ao desafio do confinamento, aparentemente passado com sucesso, sucede-se o desafio da reabertura, que exige ainda maior responsabilidade individual e coletiva.

A atividade económica e social tem de adaptar-se e reajustar-se, se necessário durante o próprio processo de retoma, com previsíveis avanços e recuos, dependendo da avaliação proativa, cumprindo abril para fazer o "milagre" do maduro maio, "mês dessa ponte entre o dever e a esperança". Tudo depende, sublinha Marcelo Rebelo de Sousa, do "bom senso com que gerirmos uma abertura sedutora, mas complexa". Até porque esta "reanimação", necessariamente controlada, como reforça o primeiro-ministro, coincidirá ainda com dramas familiares concretos e contagem diária de vítimas. "O vírus não hiberna no verão".

Não é aconselhável, até mais ver, reunir milhares de peregrinos em Fátima, como não é adequado encher o hemiciclo parlamentar, ou ter já estádios com portas abertas, festivais de música como os conhecemos, ginásios com suadas partilhas, transportes públicos enlatados, escolas de salas cheias e recreios ilimitados, praias com aglomeração nos areais, hotéis lotados, visitas descontroladas a instituições de saúde e estruturas para o cuidado dos idosos, culto religioso, congressos, cinema, teatro e outros momentos sem assegurar o distanciamento social e a eficaz higienização. Mas há um termo de compromisso que tem de ser, aos poucos, posto em prática, em todas as áreas e espaços comunitários, públicos ou privados, sem os quais a sociedade não se compreende nem realiza.

25 de abril, 1 de maio, 13 de maio ou 10 de junho são datas simbólicas neste processo. E na discussão, acesa e quente, não está a ser tida em conta a força dos momentos simbólicos, como matriz pedagógica de identidades comportamentais.

No que respeita à prática religiosa, sobretudo nos dias semanais que juntam religiosos, o compromisso da retoma deve ser assumido de forma clara pelos ministros de culto e responsáveis, sintonizados com recomendações das autoridades locais, de saúde e segurança, admitindo, por exemplo, reunir, orar e presidir ao culto de máscara ou, no caso católico, adaptar até os momentos da proximidade sacramental, sem desperdiçar as experiências digitais de "encontro" testadas nas últimas semanas, com potencial para se tornarem definitivas. "Desconfinamento progressivo" é agora a expressão-chave, a sintonizar com discernimento ativo. Porque, na verdade, não voltaremos tão depressa ao que eramos. E, nalguns aspetos, nem é desejável que tal alguma vez volte a acontecer...