Opinião

O intolerável, à nossa frente

Jonathan Ernst

O que se tem visto é um Presidente que aposta na divisão, que estimula os ódios, que incita ao desrespeito, que só quer ser o Presidente dos que o elegeram e podem tornar a fazê-lo.

O espetáculo acontece diariamente no palco da Casa Branca. A mentira tornou-se uma banalidade nas conferências de imprensa. Sucedem-se os dias em que o Presidente da nação se embrulha em imprecisões, contradições, incongruências, informações falsas e duvidosas.

O último de todos os absurdos foi sugerir que se pudesse injetar raios ultravioletas no corpo ou desinfetantes para combater o vírus, o que lhe pareceu uma ideia interessante para a qual desafiou os médicos presentes. Perante isto, até porque na conferência seguinte disse que afinal estava a ser sarcástico, poderíamos ficar por aqui. Mas esse é o problema. Achar que Trump é um caso perdido e é muito fácil criticá-lo e, portanto, deixá-lo.

Ao fim de mais de 50 mil mortes, continua a custar-lhe admitir que tem um grave problema entre mãos e que tem de lidar com ele. A princípio quis ignorá-lo. Chegou a dizer mais do que uma vez que o vírus iria desaparecer na primavera, com o calor. De nada lhe serviu que a doença nessa altura já fizesse estragos em dezenas de países. Quando os casos começaram a aumentar dentro de portas, assegurou que daí a dias o número iria estar "perto do zero". Que os doentes estavam ótimos.

Dias depois, teve de admitir que a curva estava afinal a subir e então refugiou-se em anunciar vacinas para breve ou tratamentos, como a hidroxicloroquina. As várias referências que lhe fez levaram muitos a comprar o medicamento, ao ponto de haver doentes com lupus e doenças reumáticas a ficarem com falta dele. Sem evidência científica, só melhorou a conta de farmácias e farmacêuticas. O que será que vai agora acontecer com a lixívia?

Também disse que iria haver testes para todos os que precisassem e, como a realidade não foi essa, afirmou que não assumia responsabilidade alguma.

Ao sentir-se apertado pelo crescimento dos números, atacou a China, poucas semanas depois de ter dito que estava em estreita comunicação com o Presidente Xi Jinping, agradecendo-lhe até publicamente a forma como estava a controlar a doença.

A seguir, o alvo foi a Organização Mundial de Saúde. Anunciou que iria retirar financiamento à organização e acusou-a de ter ocultado informação e de o ter feito em conluio com a China. Mesmo que assim possa ter sido, por qualquer razão que o mundo ainda não conhece, ninguém acredita que o Presidente dos Estados Unidos estivesse dependente da OMS para saber o que se passava com o vírus, quanto mais não seja porque dentro da organização trabalham médicos de saúde pública e especialistas americanos. Para não falar de todas as outras fontes de informação do Governo.

Para esta ameaça, nada contaram para ele os que vivem miseráveis condições de vida e saúde e a quem a OMS acode. Se nem as valas comuns abertas em Nova Iorque para enterrar os sem ninguém o têm refreado.

Primeiro, atirou para os estados a responsabilidade sobre as restrições, depois disse que afinal é ele que tem o poder total para decidir acabar com elas, e a seguir desmarcou-se de novo, atribuindo a cada estado a decisão de voltar à rotina habitual. E quando viu manifestantes na rua, armados, a exigir que se ignore a pandemia, correu para o Twitter a atear o rastilho e ainda foi capaz de garantir que as pessoas que protestavam tinham cumprido a distância de proteção, quando todos viram o contrário.

Pelo meio, percebeu-se também que atendeu mais prontamente a estados onde foi eleito e espera vir a ser de novo, como a Florida, do que aqueles que não o elegeram, onde demorou a fazer chegar qualquer tipo de ajuda.

Tem mostrado preocupação com a economia. Certo. Mas a verdadeira preocupação é com ele próprio. O objetivo é sentir o poder, ser reeleito, custe o que custar, mesmo que sejam vidas. A economia pode reconstruir-se mas os mortos não podem trazer-se de volta. E esta é a realidade que recusa porque a urgência é olhar para as eleições em novembro.

Impedido de fazer comícios, todos os dias, à hora marcada, coloca-se frente às câmaras em direto nas conferências de imprensa, que oscilam entre a busca por aplausos e 'ratings' de audiência e os ataques aos jornalistas.

Num dos últimos dias, para reagir às perguntas a que não sabe responder ou às que tornam evidentes os erros que tem cometido, decidiu mostrar aos repórteres um vídeo com referências elogiosas e agradecimentos a ele próprio, que a equipa da Casa Branca teve de vasculhar para encontrar.

Quando um deles lhe perguntou se aquela propaganda era apropriada no dia em que o país ultrapassou a barreira das 40 mil mortes, Trump mostrou o desagrado e respondeu que o vídeo, que é sobre ele, afinal não é sobre ele mas sobre os que andam a trabalhar para combater o vírus...

No mesmo dia em que uma jornalista lhe perguntou por que perdeu o mês de fevereiro para tomar medidas como construir hospitais ou aumentar o número de testes, chamou-lhe repugnante e falsa.

Dias diferentes, atitudes semelhantes. Um outro jornalista perguntou-lhe o que tinha a dizer às pessoas que estavam desapontadas por ele ter dito, entre outros exemplos, que o vírus iria desaparecer como um milagre. Respondeu que, se quisesse criar o pânico, iria fazê-lo tão bem que o mesmo jornalista iria parecer um jogador da terceira divisão.

Outra pergunta de outro repórter: que palavras tem para os americanos que estão com medo? "Acho que é um péssimo repórter e essa é uma péssima pergunta."

Outra jornalista perguntou-lhe por que não aproveitou o tempo que ganhou desde que, no final de janeiro, restringiu os voos da China (mas só aos não americanos). Por que demorou tanto tempo a avisar as pessoas de que o vírus estava a espalhar-se como fogo e por que não cumpriu a distância social até meio de março. Mandou-a ser simpática, relaxar e baixar "o tom de voz", porque ele é "o presidente".

Até uma repórter do canal que o defende, e serve de plataforma para ampliar em grande escala os disparates que diz e também tem contribuído para desinformar a população, levou um ralhete quando lhe perguntou por que razão os hospitais estavam a demorar tanto tempo a dar os resultados dos testes.

O jornalista que o interpelou depois da sugestão da luz e do desinfetante como tratamento para o vírus foi imediatamente apontado como "fake news".

Os órgãos de comunicação vão-se sujeitando ao faz de conta que estamos aqui para obter informações e orientações da mais alta figura do país. E alinham no tempo de antena.

Além da ofensa ao trabalho dos jornalistas, desmente cientistas e médicos, entre eles os que o aconselham e baixam os olhos ou parecem congelar de cada vez que ele tem a palavra. Agora que os especialistas temem uma segunda vaga do vírus no outono ele contradiz e já disse que tanto pode ser ser como não ser.

O que se tem visto é um Presidente que aposta na divisão, que estimula os ódios, que incita ao desrespeito, que só quer ser o Presidente dos que o elegeram e podem tornar a fazê-lo.

Donald Trump não é um político, não é um Presidente, não é um governante, não é republicano. É apenas obcecado com ele próprio e os seus interesses. Mesmo quando defende interesses de outros são sempre os dele que está a defender.

Trump apropriou-se da democracia e amarfanhou-a como nunca ninguém no mesmo lugar se tinha atrevido. Abriu precedentes a quantos quiserem continuar a destrui-la.

O que pensarão e sentirão muitos dos que o apoiaram e acreditaram nele ao assistirem à forma errática, oportunista e propositadamente desinformadora com que lança a confusão no país? E o que pensar dos que continuam a apoiá-lo?

Há quem o considere um narcisista patológico. Será. Já houve outros na história, apoiados e seguidos por milhões que deixaram danos incalculáveis.

Mas patológico é também perceber que não haja instituições, justiça, responsáveis políticos capazes de travar um incapaz, incendiário da opinião pública, que se considera intocável e acima de todos, ignorante e deslumbrado pelas redes sociais, onde conta seguidores e descarrega caprichos.

Patológico, e ainda mais evidente no meio de uma terrível pandemia, é ter sido possível alguém assim estar à frente de um país democrático. Como foi possível? é a pergunta que todos os que acreditam que a democracia é o melhor sistema de todos não devem cansar-se de fazer.

Esta ameaça não é só para os que vivem nos Estados Unidos. Estes tempos vieram por à prova a matéria de que os líderes do mundo são feitos. Vieram mostrar os que sentem o sofrimento dos outros e os que o ignoram. Os que têm empatia e os que não sabem o que isso é.

Aqui mesmo à nossa frente, do outro lado do Atlântico, um ser quase tão minúsculo como o próprio vírus consegue sobrepor-se. Numa democracia que chegou antes da nossa, a indicar-nos que este é um caminho que devemos fazer tudo para evitar.

Veja também: