Opinião

Os trabalhadores e os outrem

Ainda não há dois meses, a maioria dos trabalhadores iria assinalar mais um 1º de maio mesmo junto ao fim de semana, que passava de dois a três dias de descanso para alegria de muitos.

Mas não vai ser assim. Hoje, nestes dias que vivemos, a palavra trabalhador soa de forma diferente. Têm-se aplaudido muitos deles, os que trabalham nos hospitais em primeiro lugar. O maior tributo sem dúvida deve ir para esses.

Mas também merecem reconhecimento todos os outros que continuaram a sair de casa, a por-se em risco e aos seus, para que os restantes possam estar resguardados, dentro de casa. Desde os trabalhadores que no campo continuaram, como se nada fosse, a produzir o que nos chega à mesa até aos que continuaram a percorrer ruas e estradas vazias para fazer entregas à porta. E ainda os que, nos mercados e supermercados, acrescentaram às habituais tarefas a limpeza de carrinhos, balcões, corredores, prateleiras. Ou os que fornecem medicamentos nas portinholas das farmácias. Ou os que foram desviados da produção de vinho e cerveja para a produção de álcool ou álcool gel. Ou aqueles que puseram as máquinas de costura a trabalhar para fazer máscaras. Ou os que faziam peças de automóveis e agora fazem viseiras para os profissionais de saúde. São inúmeros. Estes continuam a ser trabalhadores.

E depois há os outros. Os que não sabiam que iam deixar de ser trabalhadores por causa de um vírus. Os que já eram precários. Os que eram independentes e agora se sentem dependentes. E por isso a palavra trabalhador no dia de hoje provoca um nó. Porque sabemos já o que estão a passar e não sabemos ainda quantos mais a eles se vão juntar. Os que foram abrangidos por "lay-off" vêem-se em apertos mas continuam a manter um vínculo. Mesmo que as empresas que recorreram a esta possibilidade estejam em maior ou menor apuro. É difícil compreender e aceitar que a economia do país dependa de tantas atividades sem folga para fazer face à paragem de meia dúzia de semanas.

E é difícil também compreender que nesta altura de exceção a burocracia do Estado pareça ter-se esquecido da urgência da realidade de tantas famílias.

Mas ainda mais difícil é prever o que vai na cabeça dos "outrem". Daqueles por conta dos quais os trabalhadores trabalham. Este é o momento em que vão ser obrigados a mostrar até que ponto prezam e respeitam os seus trabalhadores.

Sabemos que a maioria das empresas em Portugal são médias e pequenas e muitas delas vivem sem grande folga ou, pelo contrário, sem folga nenhuma e até com dívidas para pagar, independentemente da qualidade dos seus gestores - que isso seria outro tema.

Mas também sabemos que há as outras, as que têm acumulado lucros, com gestores que chegam em menos de uma semana a ganhar o mesmo que um trabalhador na mesma empresa num ano inteiro. Empresas que até conseguem evitar pagar impostos, como aqueles a que os "por conta de outrem" são obrigados, porque recorrem a "confortos" fiscais noutras paragens. Empresas que se habituaram a contar com o Estado para lhes amparar os negócios.

Essas têm agora a possibilidade de poder participar no país. Porque o país vai precisar. O Estado não vai ser suficiente para chegar a todos. A todos os que ainda têm trabalho e os que ficaram sem ele.

Se para alguma coisa serve este dia 1º de maio que seja para pensar realmente nos trabalhadores. Sem eles não há ideia brilhante, não há superestratégia, não há negócio que sobreviva.

Agora mais ainda.

A página de Conceição Lino