Opinião

Qual o valor simbólico de uma exceção?

ANTÓNIO COTRIM

Não tardaram as reações à iniciativa sindical que levou milhares de pessoas às ruas e praças das nossas cidades.

As celebrações do Dia do Trabalhador deram ritmo ao debate público. À semelhança do 25 de abril, em S. Bento, os organizadores coordenaram a ação com as autoridades, de saúde e de segurança, e garantem ter cumprido as medidas de segurança.

O Dia da Liberdade assinalou-se num espaço fechado e mais controlado. O Dia do Trabalhador, em espaços abertos, mas suscetíveis de ajuntamentos incontroláveis. Em ambos vingou o princípio da exceção, como confirma a ministra da saúde, no pressuposto do bom senso dos participantes e do reconhecimento, por parte do Estado, da relevância das datas e do que estas significam para o coletivo.

Não estando em causa o direito e o dever de assinalar o Dia da Liberdade ou o Dia do Trabalhador, não deixa de ser, no entanto, legítima a dúvida sobre a equidade, induzindo a pergunta: E se forem asseguradas as mesmas condições técnicas para a realização de um qualquer outro evento? Mesmo não sendo um evento de massas, mas apenas um gesto individual que implique não seguir a norma superiormente definida como a apropriada para um momento, que se define, já por si e ironicamente, como excecional?

Uma exceção ao regime de exceção em que estamos exige uma ponderação cuidada. Quanto mais não seja porque é isso mesmo, uma exceção à regra que suspende a normalidade. Estas datas estruturantes no nosso calendário social e cultural, como são também os próximos 13 de maio ou 10 de junho, realçam, ou deviam realçar no contexto, "a força dos momentos simbólicos, como matriz pedagógica de identidades comportamentais".

Os responsáveis institucionais pelas efemérides celebradas, bem como os debates que se fizeram, banalizaram a força simbólica das datas, que pedia para se fazer diferente fazendo a diferença que as circunstâncias aconselhavam.

Há pelo menos quatro abordagens para medir o valor simbólico da exceção no 1º de Maio: a do imediato, com a consequência direta no comportamento comunitário, que pode registar uma desmobilização das cautelas – há, afinal, um precedente de exceções; a do curto/médio prazo, caso se verifique que houve, nestes eventos, uma nova rede de contágios; a do longo prazo, com a eventual (des)credibilização das instituições, que forçaram e abriram exceções ao confinamento quando a perceção pública estava hipersensível e saturada.

A imagem do 1º de maio na Alameda ficará, em qualquer dos casos, no arquivo vivente da pandemia.

Pela positiva, como registo da força das convicções, para memória futura. As palavras do secretário-geral do PCP – “a idade não é um critério absoluto” – e da secretária-geral da CGTP – “alguns queriam calar-nos, mas não nos calamos” – sustentam esse propósito.

Pela negativa, como uma exceção precipitada. Basta, para tal, que as próximas semanas revelem uma subida da curva em fase de desconfinamento, para as imagens da Alameda serem apresentadas como exemplo, mau exemplo.

Foi uma decisão arriscada dos sindicatos, que ficam agora sujeitos à ampliação de estereótipos e à habitual utilização mediática de imagens impactantes.

Qual então o valor simbólico destas exceções? O tempo, sempre o tempo, o dirá...

Liberdade e Trabalho celebraram-se enquanto se debatiam, ainda se debate, as condições da reabertura social, com a pandemia a exigir a manutenção de medidas sanitárias profiláticas. Reforça-se o que já se afirmara antes do Dia da Liberdade: "O mais difícil" é o desconfinamento.

O que temos pela frente não é a retoma da vida como a vivíamos antes da COVID 19, mas uma "nova" normalidade, que implica, gradualmente, gerir exceções e adaptações, sabendo, de antemão, que a realidade se sujeita às circunstâncias e a norma, seguida de forma cega, pode desencadear profundas incompreensões e injustiças.

É o caso das celebrações religiosas, entre muitas outras dimensões da vida coletiva e individual. Assim que foram divulgadas as primeiras imagens da Alameda, multiplicaram-se e ampliaram-se críticas de padres, pastores e outros crentes, revelando também um caldo ideológico que leva à descentralização do debate, com algumas críticas assanhadas e acintosas, expondo um indesmentível preconceito em relação às organizações sindicais, como aconteceu no 25 de abril em relação aos políticos.

Mas há outras perguntas a fazer: é aconselhável e estão as confissões religiosas capacitadas para, no imediato e diariamente, abrirem com confiança as portas a celebrações comunitárias?

Podiam garantir, de uma forma geral e transversal, que a população estaria segura nos templos, ou optariam pela discriminação, abrindo umas portas e deixando outras fechadas? O ministro de culto sentir-se-ia tranquilo perante os riscos, quando se sabe que os procedimentos vão ser exigentes, obrigando a repensar até ritos e rotinas celebrativas?

Podia já equacionar-se, “noutros espaços de organização e pertença social, com responsabilidade monitorizada e verificável, a concretização dos direitos subjacentes, nomeadamente os da liberdade de culto”. Mas pôr desnecessáriamente a saúde em risco não se enquadra nos valores constitutivos do cristianismo, apenas para referir a religião com mais expressão na nossa cultura.

Ao esperaram mais umas semanas, as lideranças religiosas portuguesas ganham tempo para a adaptação, testemunhando, apesar de dissonâncias compreensíveis, uma cidadania madura e uma ética do cuidado.

Ecoa a ética de Paulo: nem tudo é conveniente (1 Cor, 6), embora possa ser permitido ou desejável. Mário Sérgio Cortella sintetizou-a num tríptico. A ética é o conjunto de valores que usamos para procurar a harmonia entre o quero, o posso e o devo. Há coisas que quero mas não posso, há coisas que posso mas não devo, há coisas que devo mas não quero. A consciência molda-se nesta procura constante, para que o que se quer, seja também o que se pode e o que se deve. O equilíbrio requer o adequado juízo de valores.

Nas efemérides em causa, esse discernimento teve em conta, no modelo celebrativo, o que estes representam simbolicamente no contexto de um estado de emergência, com confinamento forçado e aconselhável?

Não sendo, de facto, aconselhável reunir milhares de peregrinos no santuário, Fátima vai apresentar-se vazia de gente, como símbolo pedagógico de uma cidadania sintonizada e coerentemente responsável. Esta é uma imagem que nem todos, no futuro, podem reivindicar.