Opinião

Felizmente há luar

Quis o Universo que o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa coincidisse com um dia da Mãe cheio de sol.

Confesso que nunca me seduziu a ideia de celebrar datas que nos remetem para fins comerciais e consumismos cegos, mas neste caso, ambas definem tanto o que me move e o que me comove, que não resisto a assinalar esta coincidência vital.

A minha Mãe situa-me, ainda me ampara e dá colo, e, a Liberdade de Imprensa, mãe das minhas crenças, baliza o que sou e para onde vou. E, não é porque estamos em época de Pandemia que me deixo arrastar por essa onda de “nova normalidade” a que se quer estender o papel dos jornalistas.

Por muito que se assinale o Dia da Liberdade e que se façam discursos politicamente corretos sobre a importância da geração que venceu o lápis azul, tropeçamos diariamente em exemplos de quem preferiria esconder o “lixo debaixo do tapete” e dar ao jornalismo a similitude de quem leva uma vida desgraçada mas só reflete glamour nas redes sociais.

Pese embora este mundo global nos deixe perceber o que outros perceberam mais cedo de que “não há longe nem distância”, não conhecia o guião da entrevista que Rodrigo Guedes de Carvalho haveria de fazer ontem no jornal da Noite a Marta Temido. Mas, o que me importa sublinhar, é que não sabia, nem precisava, porque, conhecendo minimamente o perfil do Rodrigo que nos entra casa dentro diariamente, a entrevista à Ministra da Saúde só podia começar por onde começou: O estado das exceções no Estado de exceção.

E, entre perguntas que “incomodaram” e levaram Marta Temido a mostrar, por momentos, alguma crispação contida, cheguei a questionar-me se o pensamento da cidadã Marta Temido estaria mesmo refletido nas palavras da mulher que veste a pele de Ministra no centro do furacão coronavírus.

Não tenho a pretensão que o mundo veja as coisas com os meus olhos, mas parece-me evidente que a história dos últimos dois meses exigiriam que não se abrissem precedentes e que os governantes, políticos em sentido lato, centrais sindicais ou parceiros sociais se sentissem abrangidos pelos mesmos critérios de saúde pública aplicados a todos os cidadãos. Mas não.

Tenta-se legitimar atos isolados, fundados até no decreto presidencial do Estado de Emergência que já previa cerimónias como o 25 de Abril e o Primeiro de Maio. Claro está que esse decreto reflete o compromisso de Belém com S. Bento e do primeiro-ministro com o socialista Ferro Rodrigues como com o PCP, de quem um governo minoritário vai precisar em futuras negociações no parlamento. Mas não quer dizer que esteja isento de críticas ou seja poupado ao escrutínio público.

Aflige pensar que as mesmas pessoas que tanto apregoam as conquistas de Abril, se inquietem com as perguntas necessariamente pertinentes que um jornalista digno desse nome, tem de colocar na hora certa à pessoa certa. Bem sei que é mais fácil perguntar meia dúzia de banalidades, dar palco a quem manda e regressar a casa com mais certeza de que, não levantando ondas, tem salário no final do mês.

Que há instituições que se dão ao luxo de escolher os jornalistas que podem dar uma imagem romântica do banha da cobra que querem vender, mas isso não prestigia nem os jornalistas nem os dirigentes. E, não se pense que os tempos difíceis já passaram porque à boa maneira popular “ Há muita maneira de matar pulgas”. Mesmo que haja uma distância temporal entre a década de 60 do século passado em que o dramaturgo luís Sttau Monteiro escreveu contra a repressão política e viu o seu livro proibido até 1974. Hoje, estou certa. Há mesmo quem queira jornalistas equiparados a empregados de mesa que servem as “notícias” à vontade do freguês e da freguesia.

Nestas e noutras reflexões recordo sempre o célebre discurso de Marcelo Rebelo de Sousa em que o mesmo invocava o facto de ser presidente de todos os portugueses para concluir que também era, por maioria de razão, “o presidente de todas as cervejas de Portugal e de todas as águas minerais”. O chapéu é largo e a sede é muita, mas escribas e jornalistas não cabem no mesmo alforje.