Opinião

Filmes em quarentena: "O Grande Mestre"

Tony Leung em "O Grande Mestre": evocando uma figura lendária das artes marciais

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Wong Kar-wai, o cineasta de “Disponível para Amar”, também já abordou o universo das artes marciais: “O Grande Mestre” é uma evocação espectacular da figura de Ip Man, professor do mítico Bruce Lee.

Na década de 1970, a moda dos filmes de artes marciais teve como símbolo principal o actor Bruce Lee (1940-1973), de tal modo que o seu nome continua a ser indissociável do “Kung fu” encenado pelo cinema; recentemente, foi evocado por Quentin Tarantino numa divertida cena de “Era uma Vez em Hollywood” (2019). “O Grande Mestre” (2013), de Wong Kar-wai, retrata a figura lendária do chinês Ip Man (1893-1972), professor de Bruce Lee e personagem emblemática na história da artes marciais, em especial do “Wing Chun”, variante do “Kung fu” enraizada em algumas regiões do sul da China.

De efémera glória comercial, o género de artes marciais rapidamente foi reduzido a fórmulas simplistas e repetitivas. “O Grande Mestre” é a excepção que confirma a regra, encenando a vida de Ip Man, não em função da memória de Bruce Lee, antes a partir de dois vectores dramáticos: por um lado, o desafio que lhe é colocado por Gong Er, uma jovem altamente dotada para as artes marciais; por outro lado, as convulsões históricas da China, em particular a guerra com o Japão travada entre 1937 e 1945.

Estamos perante um objecto algo desconcertante no interior da filmografia de Wong Kar-wai, quanto mais não seja porque a sua popularidade se construiu através de títulos de sensibilidade romântica — lembremos os exemplos de “In the Mood for Love” (2000), entre nós lançado como “Disponível para Amar”, e “My Blueberry Nights” (2007), a sua primeira experiência em inglês com um elenco que incluía Natalie Portman, Jude Law e Norah Jones. Seja como for, encontramos em “O Grande Mestre” o mesmo olhar contemplativo, conduzido por uma invulgar sofisticação formal; para lá da densidade histórica da intriga, importa destacar as coreografias dos combates, de uma elegância rara, superando todas as convenções do género.

Notável director de actores, Wong Kar-wai conta desta vez com duas das maiores estrelas da produção asiática: Tony Leung e Zhang Ziyi, respectivamente como Ip Man e Gong Er. Ele tinha já participado em vários títulos do realizador, incluindo “Disponível para Amar”; ela tem o seu nome ligado a “O Tigre e o Dragão” (2000), de Ang Lee, outra referência espectacular na história das relações do cinema com as artes marciais.

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