Opinião

O populista

A pouco e pouco, gente que se diz neonazi começou a vir à tona, a mostrar-se e a manifestar-se, sem pudor.

Há 75 anos, milhões de europeus viviam uma imensa alegria, uma das maiores das suas vidas, quando foi anunciado o fim da Segunda Guerra Mundial.

Uma guerra que teve início na ambição de um homem. Um pequeno homem com uma gigantesca ambição que não hesitou em chacinar milhões de pessoas em nome de ideias absurdas que ignoram que o ser humano é igual em todo o mundo.

Um homem que chegou ao poder numa época de dificuldades e descontentamento. Foi ganhando terreno a galvanizar com apelos a emoções primárias e criando uma teia de privilegiados. Muitos o seguiram e se calaram perante cada atrocidade. Se o medo o pôs no poder foi também o medo que o manteve e o fez crescer. Imparável.

O horror foi noutro dia, há pouco tempo. Ainda vive quem sobreviveu e cresceu nesses tempos, a coisas que hoje nem conseguimos imaginar porque não estivemos lá.

E é essa falta de memória, a vivida e a histórica, uma das razões que têm permitido nos últimos anos, nesta Europa que nos habituámos a ter como garantia de paz e democracia, que alguns resquícios das ideias que conduziram a esta guerra tenham vindo a instalar-se.

A pouco e pouco, gente que se diz neonazi começou a vir à tona, a mostrar-se e a manifestar-se, sem pudor.

E a democracia a assistir, passiva. Porque é democrata e defende a liberdade de expressão. Mas, entre outras razões, também porque tem telhados de vidro.

Os tradicionais que têm rodado no poder foram contribuindo para minar a confiança nas instituições, optando por ignorar e, em alguns casos, até promover esquemas de corrupção. Desatentos aos que vão ficando para trás e nunca conseguem atingir privilégios mesmo que tenham mérito.

E assim o entusiasmo inicial pela participação cívica foi dando lugar a uma alienação de cada vez mais gente, que acha os políticos todos iguais. Não são. Mas os que são verdadeiramente políticos, interessados no bem comum, na causa pública, têm-se deixado abafar pelos outros, que apodrecem o sistema, em nome das "famílias" partidárias.

O populista, sorrateiramente, foi percebendo que no meio deste cenário podia emergir. E aí o vemos. Cada vez mais instalado nas mais velhas democracias, alegremente a fazer o seu caminho.

O populista acusa as elites privilegiadas mas não é melhor do que elas, só quer o lugar delas.

O populista faz o que for preciso e não tem vergonha porque está focado em conseguir poder.

O populista diz-se preocupado e interessado em defender o povo, mas não hesita em excluir do povo os que são do povo. Seja por causa da cor, da etnia, da orientação sexual ou do que servir para os seus propósitos naquele momento.

O populista quer dividir porque só assim acredita que pode conseguir reinar. Quanto mais aumentar ódios, melhor para ele. Quanto mais bodes expiatórios conseguir encontrar, melhor para ele.

Fica à espera de cada oportunidade para apontar o dedo a culpados. Podem ser imigrantes, refugiados, negros, ciganos, tudo serve. Desde que haja "eles" e "nós" e alardeie barreiras intransponíveis. O populista não quer entendimentos porque é do conflito que se alimenta.

O populista consegue identificar os descontentes e os revoltados que acreditam em soluções fáceis, porque nunca as aplicaram nem conseguem ou querem ver o alcance que podem ter.

O populista recusa factos, ignora a ciência, manipula os números. E até espalha a mentira.

O populista do século XXI delicia-se com a propaganda nas redes sociais, que não respeitam o contraditório nem a verdade. Sabe que a matilha atrás do ecrã é mais "corajosa" e aplaude mais e instantaneamente.

O populista promove o mundo num casulo, apela a fronteiras fechadas e glorifica o passado. Quer retomar o país que os avós lhe deixaram, diz ele, ignorando propositadamente que a maioria desses avós nunca pôde ir à escola, comia quando era possível e andava descalço até à idade adulta. Que a maioria desses avós não tinha direito a uma opinião e, se a tivesse, garantia a perseguição ou a prisão.

O populista fala de alto na democracia para a desrespeitar sempre que pode. E mal se apanha no poder começa a querer abafar a liberdade.

O populista não tem projetos grandiosos para os cidadãos, o que consegue conceber é o grande plano que tem para si próprio.

Aproveita-se das falhas dos outros, que não são poucas, e trata de se armar em impoluto. Em decente, em rigoroso. Mas, à menor contrariedade, cai-lhe a pele de cordeiro e vê-se o lobo.

O populista não é um problema para a democracia, é um furúnculo que cresce nela quando ela deixa de cuidar de si própria e dos seus valores.

Ontem, assinalou-se o fim da tragédia iniciada com um dos maiores assassinos da história. Populista, pode-se dizer. Hoje celebra-se o dia da Europa. A Europa que foi sonhada para ser um porto seguro para milhões de cidadãos de vários países unidos pela ideia de que juntos podemos ser mais fortes e um bom exemplo para outros.

A data chegou a 2020 e apanhou uma mudança do mundo como o conhecemos.

Esperam-nos tempos difíceis. Nem ainda conseguimos prever o que aí vem. Mas sabemos que os que já estavam vulneráveis estão agora mais. Os que já tinham dificuldades têm e vão ter mais.

O populista está a esfregar as mãos, à espreita, a salivar. Quantos vão embarcar na cegueira de ir atrás dele, quantos vão ter a coragem de o desmascarar e parar? Esta é uma das questões mais decisivas para o mundo que queremos a partir de agora.

A PÁGINA DE CONCEIÇÃO LINO