Opinião

Ainda bem que os meus mortos não estão cá para ver isto

Magda Ehlers

João Abreu

João Abreu

Jornalista

Não, não é um texto simpático ou optimista. Tenho 44 anos. Nunca, neste espaço de tempo, senti tanto a vulnerabilidade e a fragilidade da condição humana.

Somos do tempo da condição científica. Da resposta clara e inequívoca. Da certeza indubitável e fechada em respostas à prova de bala. E isso deu-nos nos anos, a garantia de que para tudo haveria uma resposta.

A crise que vivemos está a deixar-nos nus de certezas. Dentro dos nossos circuitos lógicos de trabalho, do uso da tecnologia, do conforto adquirido, entretínhamo-nos com os dias normais e por vezes cheguei mesmo a pensar, não há muito tempo, que desafios poderia ter a humanidade para além da questão lógica ambiental?

O coronavírus veio colocar no ridículo toda a civilização. O omnisciente Humano moderno, parece agora um vulgar aprendiz atordoado perante um minúsculo agente infecioso.

Ver a comunidade científica e médica mundial a apanhar bonés, governos a agirem cada um de maneira diferente, milhões de leis, organizações económicas e sociais a ruírem num espaço de semanas.

É um quadro medieval de peste, mas atenção!!!....com dados em tempo real!

Séculos de evolução reduzidos ao comportamento elementar de tapar a cara, lavar as mãos, recoleção de alimentos e mantimentos, o medo como fator central e um novo obscurantismo.

Esta crise tem contornos absolutamente ridículos à luz da estrondosa evolução humana do último século. As sociedades pararam, as respostas são tudo menos rápidas, são mais as dúvidas que as certezas, a globalização só o é em termos de circulação da informação. O homem está de calças na mão.

Como tantos, tenho medo.

Como tantos recolhi-me, desinfeto-me constantemente, e das poucas vezes que vou com o meu filho de 2 anos à rua, vou de álcool na mão, e cada vez que ele mexe no chão lá estou eu, qual obsessivo, a limpar-lhe as mãos.

É a isto que chegámos. É isto que quero para o futuro do meu filho? Não.

Ir à creche está fora de questão e as “normas” sugeridas são para rir, porque ainda não me é fácil chorar, porque esta merda a que chamam de “novo normal” não dá espaço para baixar a guarda e descontrair.

Sim é histórico o que estamos a viver. Sim será o paraíso para virologistas e epidemiologistas a quem os olhos brilham nas tvs porque foi para isto que estudaram, mas também é com isto que estão a representar o estado da humanidade, ou seja, aos papéis sem nada para nos dizer. E isso revolta-me.

Quero o meu filho de “cuca legal”, quero que se dê com e aos outros.

Quero abraçar os meus pais enquanto ainda o posso fazer.

Quero voltar a jantar com os meus amigos.

Quero, mas não posso, como todos nós.

Cheguei a casa depois de levar o meu filho a andar um pouco de bicicleta nas traseiras do meu prédio. Tirei-lhe os sapatos antes de entrar em casa. Coloquei-o dentro de casa e os sapatos ficaram à porta. Fiz o mesmo comigo.

Sentei-me no sofá e a frase que me veio à cabeça foi: “Ainda bem que os meus mortos não estão cá para ver isto”.

Dizer isto. Pensar isto. É do mais horrível a que se pode chegar.

Só mesmo pelo meu filho terei de aguentar isto.

Parabéns Homo Sapiens!