Opinião

É a política, estúpidos! 

PAULO NOVAIS/LUSA

(ou uma novela de cordel, de argumento barato, que invadiu os nossos principais políticos e que nos deixa a todos especados, a olhar e a perguntar: - que se passa?)

O suave desconfinamento do País não correspondeu a um suave desconfinamento da política.

Foi mesmo à bruta.

Nos últimos dias, o delírio da "bolha político-mediática", como lhe chamou Marcelo, dá um péssimo exemplo "ao resto" do País.

Vamos por partes.

Primeiro episódio

Mário Centeno transferiu dinheiro para o Novo Banco, como estava no contrato.

Costa mentiu ao Parlamento porque "não foi informado" que Centeno tinha cumprido o contrato, antes de estar pronta a célebre auditoria, que Centeno diz que não está no contrato, mas Costa tinha prometido que sem auditoria não havia dinheiro, mas o contrato não diz isso, e Centeno pagou e Costa não sabia.

Confuso?

Vale a pena ir atrás e ler outra vez para ficar a perceber.

Já percebeu?

Centeno não ouviu, a 22 de abril, Costa dizer que sem auditoria não há dinheiro.

Nem ouviu o mesmo, duas semanas depois, quando Costa repetiu o argumento e o dinheiro já tinha seguido.

Costa, por isso, mentiu e depois teve de pedir desculpa ao Bloco.

Centeno disse que era "irresponsável" não cumprir o contrato e pôr em causa a banca.

Costa foi desautorizado, Centeno acabou também por ser, o ministro quis (outra vez) ir embora, Costa não deixou, estiveram reunidos noite dentro, saíram com sorrisos ensaiados e tanto ensaio quase dava lugar a um aperto de mão espontâneo.

Centeno fica, com prazo de validade.

Costa diz que a crise está "encerrada", mas dizer só não chega.

O ministro já não tem autoridade e Costa vai ter de deixar sair o Super Mário, o Ronaldo das Finanças, o líder do Eurogrupo... porque depois do verão vai ser preciso gastar muito.

Houve - e há - crise política dentro do Governo.

O pior que podia ter acontecido nestes tempos de pandemia era um conflito dentro do Governo, entre o primeiro ministro e o primeiro dos ministros.

Não é a única crise em S. Bento, mas é a mais importante.

Confuso?

Segundo episódio

Para tentar fazer esquecer a polémica com Centeno, que estava a abalar o Governo, o País e o Eurogrupo, o primeiro-ministro (leu bem, António Costa, mas o primeiro-ministro) resolveu, a meio de uma visita oficial a uma fábrica de automóveis, lançar a recandidatura do Presidente da República (que estava ao lado).

Admito que possa ter sido confuso.

Foi assim: o primeiro-ministro, numa visita oficial, onde estava o Presidente da República, fez de conta que era líder do PS e decidiu, sem falar com o partido, apoiar Marcelo Rebelo de Sousa, que ainda não disse que quer ser candidato e, mais, garantir que, daqui a um ano, os dois estariam lado a lado, na mesma fábrica e nas mesmas funções.

Infelizmente, a máscara que Marcelo tinha na cara não deixou ver a expressão do Presidente, mas a de António Costa - reparem que já não digo do primeiro-ministro nem secretário-geral do PS era de sorriso aberto.

Marcelo, o Presidente que quer ser candidato, mas ainda não o disse, acabaria apenas por dizer que é preciso manter "a unidade que construímos" até 2021, 2022 e por aí fora.

Confuso?

Terceiro episódio

Costa, já não sei qual dos dois, mas parece ter sido o primeiro-ministro, porque o líder do PS anda sem atividade há mais de 70 dias, acabou a relativizar o que afinal tinha dito sobre Marcelo vir a ser presidente outra vez daqui a um ano - pelo meio há essa coisa aborrecida que se chama eleições presidenciais.

Que não era bem, assim, que não era bem um apoio, que já todos os portugueses perceberam que Marcelo vai continuar Presidente por vontade do povo, e por aí fora.

O partido (uma pequena parte) caiu em cima do secretário-geral.

E a protocandidata que não queria ser, Ana Gomes, voltou a pensar no assunto porque o líder do seu partido, o PS, não devia ter anunciado nada sem falar com os militantes.

Ana Gomes atacou Marcelo como "presidente do regime", Marcelo, que rejeitou alimentar a "bolha político-mediática" chutou a recandidatura para novembro, mas respondeu, na mesma ocasião, a Ana Gomes, a dizer que um "Presidente da República não pode nunca não ser do regime" e, como se não estivesse tudo já quente e confuso, adivinhe quem veio para o almoço?

Ferro Rodrigues. Garanto que o almoço foi oficial, entre o primeiro-ministro e o Presidente da Assembleia da República. Estava na agenda oficial.

E o que disse, então, o Presidente da Assembleia da República sobre o Presidente da República, sentado ao lado do primeiro-ministro?

Que, se as eleições fossem amanhã, votava em... Marcelo, que é Presidente, mas ainda não é candidato.

Costa estava à mesa e concordou.

Com o mesmo sorriso do outro dia, quando combinou encontro na fábrica com o Presidente em funções, que ainda não é candidato, mas que Costa tem a certeza que será outra vez Presidente e, agora, com o voto de Ferro Rodrigues.

Confuso?

É a política, estúpidos.

Costa precisa de Marcelo. E gosta dele.

Marcelo precisa de Costa. E gosta pouco de Rio.

Marcelo Presidente (outra vez) pode ser bom para Costa.

Costa primeiro-ministro é ótimo para Marcelo.

Ana Gomes corre em pista própria e pouco lhe importam Costa, Marcelo, Rio ou seja quem for.

Centeno quer ser Governador.

A chamada "bolha político-mediática", como diz Marcelo, anda "entretida" com isto.

A verdade é que, como diz Marcelo, neste momento, "as eleições presidenciais não são a preocupação dos portugueses".

Mas não foi a bolha, os comentadores ou os jornalistas os grandes protagonistas dos episódios acima descritos.

É, apenas, política.

E a política não são só eleições.

Não nos façam, por isso, de estúpidos.