Opinião

«Já me doem as palavras, meu amor...»

(Ou uma teoria de como as palavras e a língua portuguesa é utilizada a bel-prazer de quem a fala e pode ter significados diferentes.)

Recessão nem sempre é recessão.

É um termo muito técnico, pesado e negativo. Mais vale dizer que vamos «passar dificuldades».

Austeridade pode não ser bem austeridade

Dito de outra forma, porque isso da austeridade faz lembrar a Troika, então é preferível escolher a expressão «tempos difíceis».

Défice excessivo pode não ser bem isso.

Pode ser apenas «gastos extraordinários», por causa de um «momento extraordinário», de uma «conjuntura extraordinária». Excessivo é coisa de gastadores. Extraordinário é assunto de emergência.

Já agora, um orçamento retificativo também pode ser, afinal, uma coisa diferente: um orçamento «suplementar». Serve para retificar o orçamento inicial, mas nunca se pode chamar um orçamento retificativo. Retificar é assumir que o primeiro estava mal, suplementar é saber lidar com tudo o que vem antes: «passar dificuldades», em «tempos difíceis» e num momento «extraordinário».

Claro que um Paraministro também não é bem um paraministro.

Pode ser um consultor, conselheiro, coordenador, auxiliador de ministro(s), amigo, homem de perfil imaculado, técnico reputado, académico brilhante, gestor com provas dadas.

Nem sei onde foram buscar isso do Paraministro. Que raio de ideia.

se·mân·ti·ca
(francês sémantique)

1. Ramo da linguística que estuda o significado das palavras
"semântica", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Nem sei por que insistem.

Porquê carregar nas palavras, utilizar significados pesados, negros, de chumbo, tenebrosos, dramáticos, fatalistas, apocalíticos, dantescos... quando, na verdade, a vida é bem melhor se formos apenas doces, suaves, macios, alegres, radiantes, positivos, amenos e felizes?

  • 15:42