Opinião

De regresso às salas de cinema

Catherine Deneuve em "A Bela de Dia" (1967), um dos títulos do ciclo Buñuel

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Depois das nossas semanas de quarentena e confinamento, a pouco e pouco, volta a ser possível ver filmes nos seus lugares de eleição: a defesa das salas escuras é uma dimensão essencial da vida do cinema, da sua cultura e do seu comércio

Em tempos de muitos problemas sociais e, por vezes, de alguma precipitação na maneira de os enfrentar, creio que vale a pena referir que o mercado das salas de cinema tem mantido um comportamento exemplar. Sem menosprezar, longe disso, as precauções indispensáveis na defesa da saúde individual e colectiva, os cinemas estão a reabrir, a pouco e pouco, devolvendo aos cidadãos um valor essencial da cinefilia. A saber: ver filmes numa sala escura, num grande ecrã.

E há de tudo um pouco. Desde a estreia de um notável documentário de memórias da Segunda Guerra Mundial (Uma Vida Alemã) até ao regresso de um dos maiores espectáculos da produção anglo-saxónica do ano passado (“1917”), passando por um belo ciclo de dez títulos de Luis Buñuel, incluindo as obras-primas “A Bela de Dia” (1967) e “O Charme Discreto da Burguesia” (1972).

No meio destas boas notícias, reencontrei esta imagem do velho cinema Monumental, na Praça do Saldanha, em Lisboa (disponível no site do Instituto Camões). Foi demolido em 1984. E é com desencanto, confesso, que não posso deixar de observar que este é um testemunho de um tempo de prazer cinematográfico que a maior parte das pessoas mais jovens não conhecem.

Não quero simplificar, até porque no mesmo local tem existido um actividade também de exibição cinematográfica cujos méritos não estão em causa. Além de que não faz sentido demonizar as muitas e excelentes alternativas que, agora, existem para ver filmes online.

Acontece que a cultura cinematográfica (a palavra “cultura” envolve, antes do mais, os modos de comercialização dos filmes) se faz também, há mais de um século, dos seus lugares de eleição. E esses lugares estão longe de se esgotarem no escasso rectângulo do nosso computador ou no minimalismo visual do nosso telemóvel.

Defender a preservação das salas de cinema é, por isso, defender um modo de conhecimento e um modelo de fruição que tem tanto a ver com as subtilezas temáticas e estéticas de cada filme como com os postos de trabalho ligados à existência dessas mesmas salas.

Eis um interessante testemunho de um outro tempo da vida pública do cinema: são imagens do arquivo da British Pathé (sem som), registando a inauguração do cinema Ritz, em Londres, na década de 1930.