Opinião

História de um sargento racista que maltratava brancos quando não tinha pretos

R. Cunha tinha um olhar frio, gélido mesmo.

R. Cunha, segundo-sargento miliciano de artilharia tinha várias particularidades. Uma delas era usar um pingalim, normalmente só utilizado por oficiais e de cavalaria.

O dele era uma pequena vara de madeira, com desenhos em relevo, que ele manuseava sempre atrás das costas e com a qual fazia uma dança estranha. Segurava a vara e rodava-a para a frente e para trás na zona do fundo das costas.

Outro detalhe é que R. Cunha usava botas de «paraquedista». Não usava as normais e regulares botas do Exército. Tinha uns pares de botas com a biqueira com um relevo, sempre lustrosas como deve ser mas feitas de material diferente do resto das outras botas dos homens que «comandava».

R. Cunha tinha um olhar frio, gélido mesmo.

Como não era muito alto, utilizava aquele pequeno dourado nos ombros para se afirmar diante de uma Bateria (em Artilharia chama-se bateria) de miúdos, de vinte anos, assustados, obrigados a estar ali, no extinto serviço militar obrigatório.

Utilizava o poder que as divisas lhe davam diante de recrutas sem nada nos ombros e tratados como se não fossem gente.

Nada disto seria verdadeiramente grave, porque se trataria «apenas» de um exercício de poder, de ego majorado, de superioridade momentânea de uma pessoa perante um grupo de outras pessoas que, de acordo com o Regulamento de Disciplina Militar, tinham a obrigação e o dever de lhe obedecer sem questionar, de cumprir ordens sem hesitar, de dar um «passo em frente» sem direito a recuar.

Acontece que R. Cunha era racista.

Profunda e convictamente racista.

Como, na Bateria, não havia recrutas negros, R. Cunha escolheu no catálogo de cores de pele, queimadas por aquele impiedoso sol de Agosto, os mais escuros.

Os mais queimados.

Os que estavam mais próximos da cor de pele que ele odiava.

R. Cunha, do alto do seu metro e sessenta e cinco, com as botas de paraquedista que mais ninguém - a não ser ele - usava no quartel, com o pingalim ridículo enfiado, volta e meia, no rabo, com movimentos circulares e repetitivos enquanto falava com olhar gélido, riso de troça e uma vontade irreprimível de «deixar o preto sofrer atré ele ficar roxo», R. Cunha, esse ser mesquinho e miserável, mal-formado e infeliz, que aproveitava aquela divisa pequenina, como ele, que trazia aos ombros para humilhar os seus semelhantes mais novos, que gostaria muito de ter tido um «preto» naquela recruta, escolheu, como dizia, os mais escuros para limpar as latrinas de uma bateria inteira, mudar o óleo aos motores, esfregar o chão da cozinha, capinar (exercício horrível de tirar ervas minúsculas de entre os milhões de paralelos que compunham o grande chão de toda a unidade) e fazer todo o tipo de trabalhos, dos mais sujos aos mais pesados, dos mais dolorosos aos mais repetitivos.

O problema não era ter de fazer esses trabalhos que a tropa obrigatória fazia.

A questão é que ele escolhia sempre os mesmos, os mais escuros, os mais queimados, os mais morenos, para os fazerem.

Não satisfeito, R. Cunha ainda conseguia, nas notas - que dava aos testes que mandava fazer sobre artilharia e outras questões bélicas - dar negativa aos mais escuros, aos mais queimados, aos que ele odiava porque, não sendo «pretos», estavam lá próximo.

Curioso, porque os testes eram escritos e quando, na caserna, se comparavam respostas, os «brancos» tinham 15 ou 16 e os «escuros», com as mesmas respostas, tinham 10 ou 11.

Nunca ninguém ousou desafiar a autoridade de R. Cunha porque na tropa é muito complicado «fazer queixa» de um superior.

E nós, os que apanhámos mais sol, os que ficámos mais escuros no verão, só contávamos os dias que faltavam para acabar aquele tormento, o dia em que voltaríamos a ser livres e, todos, os escuros, lá no fundo, desejávamos encontrá-lo, por acaso, um dia qualquer, na cidade, sem ter o pingalim enfiado no rabo, sem botas de paraquedista, sem farda, sem divisas.

Só assim, olhos nos olhos, frente a frente, sem mais nada, apenas como dois seres humanos em igualdade de circunstâncias.

Passei anos a desejar que isso acontecesse.

Nunca aconteceu.

Felizmente para mim.

Não teria, afinal, prazer nehum em olhá-lo nos olhos outra vez e dizer-lhe tudo o que penso dele.

Ou melhor.

Pensando bem.

Depois destes anos todos, gostava mesmo era de o encontrar.