Opinião

Memórias do "western spaghetti"

Clint Eastwood em "O Bom, o Mau e o Vilão" (1966): o "western" americano em versão europeia

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

O legado musical de Ennio Morricone tem um capítulo fundamental no chamado “western spaghetti”: as bandas sonoras que compôs para os filmes realizados por Sergio Leone, incluindo “Aconteceu no Oeste”, são uma referência lendária.

A notícia da morte de Ennio Morricone (dia 6 de Julho, contava 91 anos) leva-nos a procurar as imagens da época áurea do “western spaghetti”. Morricone foi, de facto, um dos compositores de excelência desses “filmes de cowboys” da década de 1960. Provenientes de Itália, resultantes de diversas alianças de produção, sobretudo com espanhóis e franceses, neles encontrámos novas histórias inspiradas nas paisagens do Oeste dos EUA, agora tratadas como aventuras espectaculares, quase abstractas, por vezes à beira do surreal.

Entre as centenas de bandas sonoras compostas por Morricone, há uma significativa colecção de “westerns spaghetti”, incluindo títulos que quase desapareceram de circulação como “Uma Pistola para Ringo” (1965), de Duccio Tessari, “O Grande Pistoleiro” (1966), de Sergio Sollima, ou “Navajo Joe” (1966), de Sergio Corbucci. Dir-se-ia que tais títulos foram secundarizados pelos que, sem dúvida com incomparável energia épica, têm assinatura de Sergio Leone. A começar, claro, pela trilogia do “homem sem nome”, protagonizada por um Clint Eastwood ainda mal conhecido na Europa: “Por um Punhado de Dólares” (1964), “Por Mais Alguns Dólares” (1965) e “O Bom, o Mau e o Vilão” (1966).

Para os espectadores mais jovens, formados no consumo de aventuras de super-heróis, será, talvez, difícil reconhecer a aura de popularidade que acompanhou esses filmes. Mas é um facto. Numa altura em que, de John Ford a Sam Peckinpah, Hollywood introduzia no “western” muitas componentes críticas e auto-críticas sobre a representação clássica da expansão para Oeste, o “western spaghetti” impôs-se, com enorme sucesso nas bilheteiras, como uma espécie de requiem pelos heróis tradicionais, agora cada vez mais solitários.

A apoteose de tudo isso terá sido “Aconteceu no Oeste”. Realizado por Leone em 1968, a sua banda sonora há muito pertence ao imaginário cinéfilo. Eis uma breve memória: o duelo final entre Henry Fonda e Charles Bronson, pontuado pelos sons inconfundíveis da partitura de Morricone.