Opinião

Sessão de cinema: “O Charme Discreto da Burguesia”

"O Charme Discreto da Burguesia", ou o realismo e o surrealismo segundo Luis Buñuel

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

No ciclo dedicado ao mestre espanhol Luis Buñuel, a decorrer em várias cidades, “O Charme Discreto da Burguesia” é um dos destaques: recebeu o Óscar de melhor filme estrangeiro de 1972.

Apresentado numa magnífica cópia restaurada, o filme “O Charme Discreto da Burguesia” constitui, por certo, um dos trunfos maiores do ciclo dedicado a Luis Buñuel (1900-1983), iniciado em Lisboa e Porto, a circular por várias cidades do país. Quanto mais não seja porque, em representação da França, recebeu o Óscar de melhor filme estrangeiro referente à produção de 1972.

Aliás, com ele se inaugura aquilo que podemos designar a “trilogia francesa” que viria a encerrar a obra do mestre espanhol. Completada por “O Fantasma da Liberdade” (1974) e “Este Obscuro Objecto do Desejo” (1977), também presentes neste ciclo, tal trilogia ilustra o paradoxal gosto narrativo do autor: por um lado, observando com meticuloso realismo os conflitos entre classes e, em particular, como o título sugere, os comportamentos burgueses; por outro lado, abrindo as suas histórias a uma dimensão onírica e fantasmática que, como é óbvio, não é estranha às raízes surrealistas da sua filmografia (lembremos o clássico “Un Chien Andalou”, de 1929).

Nesta perspectiva, “O Charme Discreto da Burguesia” é um filme que desafia qualquer descrição convencional. Digamos que estamos perante um pequeno grupo de personagens que planearam uma refeição em conjunto, havendo sempre um sobressalto mais ou menos insólito (surreal, justamente) que os obriga a transferir o repasto para um novo cenário…

O cinema de Buñuel nasce de uma visão acutilante dos comportamentos sociais, num permanente jogo de revelações e ocultações em que os contrastes se harmonizam: o drama mais perturbante atrai quase sempre o humor mais cáustico. Sem esquecer que tal resulta também de uma subtil direcção de actores, aqui com destaque para o espanhol Fernando Rey, muito bem acompanhado por uma galeria francesa que inclui Delphine Seyrig, Stéphane Audran e Jean-Pierre Cassel.