Opinião

Vai-se andando...

ANNA M. WEBER

O porteiro do prédio falava, esta manhã, com a senhora da limpeza.

Conversa de circunstância, depois do típico: - «está muito calor, isto não se aguenta assim».

Há muitas conversas que começam pelo tempo que está, esteve, ou que previsivelmente vai estar, e depois as palavras vão por ali fora para os temas do dia. Mas nem o porteiro nem a senhora da limpeza sabiam que, da minha varanda, conseguia ouvi-los.

Rapidamente o diálogo foi para a EDP, e para o presidente: - «não me admira nada, veja lá ao preço que a gente paga a luz», diz a senhora da limpeza ao porteiro, que concorda que a luz está cara, ou então, noutra versão destas conversas: - «nós ganhamos é pouco», diz ele, em resposta, o que também não deixa de ser verdade, é como ver o copo meio cheio ou meio vazio.

Neste caso, os dois têm a sua razão, a luz está cara e ganhamos pouco, mas nem ele nem ela se debruçaram sobre o tema das rendas da energia.

Ele estava sem máscara e ela estava de máscara e então: - «você não usa a máscara?», diz ela, equipada, e ele diz que não, porque na portaria está só ele e anda sempre cá fora porque, lá está, está bom tempo e ao ar livre não é preciso usar, só era preciso era que se descobrisse a vacina, diz ela, e ele: - «eles andam a trabalhar nisso, mas não se sabe para quando».

Uma informação relevante, a dele, mas sempre a dar esperança à colega, que também está preocupada com as matrículas na escola, dantes era tudo muito mais fácil, isto dos computadores é muito bonito mas não é para toda a gente, diz ela: - «às vezes estão horas na internet e não conseguem nada».

Assim contado parece uma revista de imprensa, com os títulos dos jornais do dia ou, quem sabe, por causa deles.

Já falaram do tempo, do Mexia, das matrículas, das máscaras e do desconfinamento, ela de esfregona, cá fora no pátio de entrada, ele a fumar com um pé na porta, faz-se um silêncio, e com o nacional-porreirismo, a nacional tranquilidade, a nacional resignação, o nacional encolher de ombros, diz ele: - «olhe, nunca pior».

Sábias palavras, ora se o tempo é o que é, as matrículas parece que vão ficar resolvidas durante o dia embora ambos ainda não soubessem, a vacina vai demorar e vai... e isso do senhor da EDP não adianta nada porque a luz está cara e não disseram nas notícias que vai baixar, não há muito mais conversa, e ela: - «vai-se andando, não é?»