Opinião

A verdade é um conceito muito estranho

MANUEL DE ALMEIDA

Sr. Presidente, então onde fica a «verdade», a verdade toda, essa que nos prometeu, que garantiu contar, que decidiu que era para partilhar e ser cristalina?

Começa no Tribunal.

Jurar dizer a verdade, só a verdade e nada mais do que a verdade.

Mas, depois, cada um conta ao juiz a verdade que quer, a verdade que lhe dá jeito ou apenas a verdade tal como a viu, ou viveu, ou interpretou.

Em março, Marcelo Rebelo de Sousa prometeu que diria sempre a verdade aos portugueses em tempos de pandemia.

A verdade e nada mais que a verdade,

A verdade nua e crua, sem tibiezas e sem adocicar, dourar ou escurecer os factos, descrever a realidade, por mais difícil que fosse ou parecesse ser.

Ficámos, todos, à espera de uma verdade cristalina, pura, imediata e sem filtros, uma verdade real e absoluta, para nos sentirmos, todos, unidos por essa verdade e empenhados, todos, no mesmo combate.

Todos com a mesma informação, dados certos, números exatos, as coisas tal como elas eram.

Marcelo e Costa criaram as reuniões no Infarmed, políticos de todos os partidos a ouvirem especialistas, médicos, epidemiologistas, cientistas e outros «técnicos».

O porta-voz da reunião era, claro, Marcelo, que trazia lá de dentro os números mais relevantes, os dados mais importantes, as ideias mais fortes. A verdade.

Em emergência correu tudo bem mas, pouco depois, começámos a perceber que afinal, lá dentro, havia várias verdades.

Cada um dos presentes - e eram muitos - trazia a sua verdade cá para fora, e cada um começou a olhar de forma diversa para os números, as explicações, as justificações, a discutir as opções tomadas e a pôr em causa as verdades absolutas que nos prometeram.

Nas últimas semanas, Costa irritou-se com os especialistas, aparentemente - lá está, aparentemente - por discordar dos números e das opiniões; puxou as orelhas à ministra, saiu esbaforido da reunião e deixou Marcelo sozinho e aparvalhado a falar do que aconteceu lá dentro sem dizer o que aconteceu lá dentro.

Depois, hoje, sem aviso prévio, acabaram as reuniões.

As tais que serviam para sabermos a verdade, ou o mais próximo possível dela.

Pelo menos, com tantos presentes, ouviamos sempre as várias partes da verdade.

Não há verdade absolutas - ou há? - mas na verdade, a verdade fica agora fechada, em pequeno circuito, reservada a quem o Governo entender que deve saber a verdade.

E que verdade?

A que dá jeito, a que interessa, a que estrategicamente convém contar.

E, Sr. Presidente, então onde fica a «verdade», a verdade toda, essa que nos prometeu, que garantiu contar, que decidiu que era para partilhar e ser cristalina?