Opinião

Sessão de cinema: “Os Bons Amantes”

Spike Lee em "Os Bons Amantes": actor, argumentista, realizador e produtor

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Foi a longa-metragem de estreia de Spike Lee: “Os Bons Amantes” (título original: “She’s Gotta Have It”) possui as virtudes de uma comédia social capaz de discutir as formas convencionais de representação dos afro-americanos e também os estereótipos femininos

É muito possível que, em tempos recentes, alguns espectadores tenham descoberto (ou redescoberto) o trabalho de Spike Lee através de duas produções da Netflix: a admirável longa-metragem “Da 5 Bloods - Irmãos de Armas”, sobre um grupo de veteranos da guerra do Vietname, e a série “She’s Gotta Have It”, retrato em tom de comédia de uma mulher que faz o possível para harmonizar a vida com os seus três amantes…

Ora, vale a pena recordar que na mesma plataforma de streaming está disponível a referência inspiradora dessa série. Chama-se também “She’s Gotta Have It”, entre nós recebeu o título “Os Bons Amantes” e remete-nos para a fase inicial da carreira de Spike Lee, acumulando as funções de actor, argumentista, realizador e também produtor (através da sua empresa 40 Acres and a Mule Filmworks).

Trata-se de uma produção de 1986, anterior, portanto, ao filme que projectou internacionalmente o nome de Spike Lee: “Do the Right Thing/Não Dês Bronca” (1989). A figura central, Nola Darling (Tracy Camilla Johns), é habitualmente citada como uma verdadeira revolução nas formas de representação das personagens afro-americanas: através de uma subtil lógica de comédia, Spike Lee desafia clichés psicológicos e convenções narrativas, ao mesmo tempo propondo um retrato carinhoso e acutilante de Nova Iorque, mais precisamente da zona de Fort Greene, Brooklyn.

Rodado a preto e branco, com um orçamento minimalista, “Os Bons Amantes” tornou-se um invulgar sucesso de bilheteira, acabando por arrebatar duas distinções de grande valor simbólico: o prémio da Juventude, no Festival de Cannes, e o prémio de melhor primeiro filme em 1987, nos EUA, no âmbito dos Film Independent Spirit Awards.

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