Opinião

O difícil combate das salas de cinema

Catherine Deneuve e Juliette Binoche em "A Verdade": um das estreias de Verão nas salas portuguesas

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

A situação de pandemia está a afectar o mercado cinematográfico global. Nos EUA, em particular, há especialistas do mercado que consideram que as salas escuras dificilmente poderão reabrir antes do mês de Setembro.

Não tenhamos dúvidas: as salas de cinema de todo o mundo estão a travar um dos mais complexos, e também mais difíceis, combates de toda a sua história. E escusado será dizer que a conjuntura de pandemia não pode ser comparada com outros momentos em que o hábito de “ir ao cinema” foi posto em causa.

Lembremos apenas o que aconteceu no final dos anos 1950 e ao longo da década de 60. Por essa altura, a concorrência crescente da televisão foi enfrentada através dos chamados “formatos largos” (CinemaScope, 70 mm, etc.): as salas passaram a oferecer uma grandeza de imagem e um envolvimento sonoro que, escusado será dizer, eram impossíveis na casa de cada um. Agora, não se trata apenas de repensar o que se tem para oferecer: pura e simplesmente, pode não ser possível oferecer o que quer que seja.

Sublinhe-se, por isso, o exemplo português: a pouco e pouco, com as devidas precauções e medidas de segurança, todos os distribuidores e exibidores têm sabido relançar a sua actividade, preservando a noção (cultural & comercial) do cinema como acontecimento específico das salas escuras. E boas descobertas não têm faltado, incluindo os títulos mais recentes de autores tão especiais como o japonês Hirokazu Kore-eda (“A Verdade”) ou o canadiano Atom Egoyan (“Convidado de Honra”).

Mais difícil está a ser o caso americano. Sendo os EUA um dos países com uma mais dramática situação face ao COVID-19 (3.308.312 infectados e 135.219 mortes no momento em que escrevo este texto), os estúdios continuam a tentar gerir da forma mais razoável o seu calendário de estreias. Títulos centrais na temporada de Verão — incluindo “Mulan”, dos estúdios Disney, e “Tenet”, de Christopher Nolan — já tiveram as respectivas datas de lançamento várias vezes alteradas. Com consequências directas no calendário global…

Novidade do começo desta semana é o facto de alguns analistas do mercado considerarem que as salas americanas dificilmente poderão reabrir antes de Setembro (“Tenet”, por exemplo, continua agendado para 12 de Agosto). Daí também o insólito da situação: uma das mais fortes apostas comerciais para o mês de Julho — “A Velha Guarda”, um “thriller” com Charlize Theron produzido pela Netflix [trailer] — só pode ser visto online. Decididamente, o Verão cinematográfico já não é o que era…