Opinião

O Crime Económico do Hidrogénio

Leon Kuegeler

Se não fizermos nada para o impedir estaremos a dar carta verde a mais um saque das empresas do regime a toda a economia.

O projeto da produção de hidrogénio em massa em Portugal é um gigantesco crime económico que está prestes a ser cometido com a conivência de todos e de cada um de nós. Se não fizermos nada para o impedir estaremos a dar carta verde a mais um saque das empresas do regime a toda a economia.

Entre os empresários que estão a preparar as suas candidaturas, estão alguns que ficaram a dever centenas de milhões de euros aos bancos, nomeadamente ao Novo Banco. O mesmo que recorre sistematicamente aos nossos impostos para cobrir os buracos desses créditos.

O Governo português quer empurrar a totalidade dos consumidores de eletricidade em Portugal, famílias e empresas, para um novo esquema altamente subsidiado de produção de hidrogénio a partir de novos parques de eletricidade fotovoltaica. Se este esquema for aprovado e implementado irá contribuir para a triplicação do número de estruturas de produção de energia elétrica em Portugal, todas subsidiadas, numa altura em que já existe excesso de capacidade no nosso sistema que obriga ao pagamento de preços dos mais elevados da Europa, baixando proporcionalmente a nossa competitividade.

Para as pessoas perceberem, Portugal tem neste momento um parque de centrais de produção de eletricidade a partir da queima de gás natural (ciclo combinado) e de grandes e pequenas barragens, que são pagas para estarem paradas enquanto as chamadas renováveis estão a injetar eletricidade no sistema – as centrais de biomassa, as fotovoltaicas e as eólicas. Dentro deste grupo, a maior expressão é das eólicas, que têm a venda da energia à rede sempre assegurada, mesmo que não esteja a ser consumida, como nas horas de vazio, à noite. São pagas a preço altamente subsidiado, mais de 90 euros o MW em média, sendo parte da produção oferecida (sim, dada a troco de nada) a Espanha, durante a baixa do consumo. Outra parte da produção eólica é utilizada para bombar água dos rios a jusante das barragens para montante – uma loucura financeira e económica que nós consumidores pagamos a um preço altíssimo – só para dar uso a essa energia e justificar a sua produção. Já a eletricidade produzida pelas centrais fotovoltaicas ainda hoje é paga a cerca de 400 euros MW, quando a energia no mercado grossista se transaciona a menos de 50 euros, um preço que é uma ficção porque o valor das faturas é sempre várias vezes mais elevado.

Não contente com estas disfunções do sistema, o Governo quer agora triplicar uma estrutura excedentária e desequilibrada, lançando novas mega-centrais de fotovoltaicas para produzir eletricidade destinada à eletrólise da água para produzir hidrogénio.

Diz o Governo que o objetivo é aproveitar os fundos europeus disponíveis para este projeto e promover uma substituição em larga escala do consumo de combustíveis líquidos, gasóleo e gasolina. Agora já não é o carro elétrico a prioridade, é o carro a hidrogénio, uma viragem brusca do ministro do Ambiente em poucos meses.

Mas não diz o Governo que este mega projeto, que pode ascender aos 7 mil milhões de euros de investimento, além de triplicar o número de estruturas de produção de energia existentes em Portugal, sendo altamente subsidiado, não implica o desmantelar dos subsídios atualmente existentes na produção de energia eólica e fotovoltaica, nem das centrais de gás natural e das barragens, igualmente subsidiadas para estarem paradas. Isto é, vamos ter três níveis de tecnologia diferentes, todos subsidiados, uns a somar aos outros.

O capítulo IV do projeto do hidrogénio é muito claro: uma vez que as centrais eólicas e fotovoltaicas caminham a longo prazo para o fim dos subsídios, é preciso começar já a mudar esses subsídios para uma nova forma de produção – para o Governo o importante é manter esses subsídios e não cortá-los definitivamente para baixar a fatura da eletricidade.

Aliás, o súbito abandono do interesse do Ministério do Ambiente em lançar novos projetos de eólicas sem subsídio, a preços de mercado, tem a ver com isso mesmo – o interesse de manter as rendas a favor de alguém no futuro.

Mas agora que caminhamos para uma crise brutal, com uma quebra do PIB superior a 12 por cento, um défice público a rondar os 10 por cento e um desemprego a galopar, não seria melhor o Governo perceber que o país não tem capacidade económica e financeira para se lançar em mais um mega projeto na área da energia, de custo altíssimo e de resultado incerto, como o reconhece a maior parte dos especialistas internacionais em relação à massificação da tecnologia do hidrogénio?

Não seria melhor guardar os sete mil milhões de euros de fundos comunitários que estão destinados a este projeto da economia não transacionável - a maior parte dos quais voltará para os cofres da Holanda e da Alemanha, países que nos vão vender a tecnologia do hidrogénio e assim conseguem o retorno dos fundos que cederam – não seria melhor guardar esse dinheiro para ajudar os exportadores de frutos vermelhos de Trás-os-Montes, os exportadores de móveis de Paços de Ferreira, os produtores de tomate e hortaliças do Ribatejo e do Alentejo, os produtores de moldes da Marinha Grande, os produtores de vinhos do Dão e do Alentejo, todos os que trabalham na economia transacionável e fomentam as exportações?

Não seria melhor destinar esses sete mil milhões a atividades de exportação de bens transacionáveis, agora que o turismo praticamente desapareceu e será muito difícil recompor-se a curto prazo?

O plano do Governo é desviar esse dinheiro da economia transacionável para a economia protegida dos amigos das rendas garantidas.

Aos meus colegas jornalistas e analistas económicos e políticos deixo um desafio: procurem na lista dos nomes de empresários e empresas já posicionados para se candidatar ao mega projeto do hidrogénio em Portugal os nomes de empresários e grupos de empresas que ficaram a dever centenas e milhares de milhões de euros ao Novo Banco, CGD, BCP e outros grandes bancos nacionais. Não são poucos os que lá estão, à espera de nos sugar de novo os bolsos, desta vez através das faturas da eletricidade.

Daqui a poucos anos estaremos todos a abrir a boca de espanto com as notícias sobre indícios de corrupção no mega projeto do hidrogénio. Os suspeitos, alguns políticos atuais e empresários corruptores do regime, estarão novamente a recorrer aos dez maiores escritórios de advocacia em Portugal para se proteger. Um qualquer juiz de instrução estará a subscrever uma duríssima acusação do Ministério Público.

E os comentadores habituais, completamente desfocados, estarão a atacar o juiz de instrução por ser um radical, quando alguns políticos corruptos e os empresários corruptores já estarão ricos, provavelmente a gozar os milhões no estrangeiro.

É assim Portugal.

Podia não ser assim?

Podia. Se o Presidente da República e o líder da oposição impedissem de imediato este crime económico do hidrogénio alegadamente verde e obrigassem os promotores do projeto, o Governo, o ministro do Ambiente e o secretário de Estado da Energia a reduzi-lo à sua justa dimensão: a de um projeto piloto que só deveria crescer futuramente em função dos resultados obtidos noutros países mais ricos da Europa.

Infelizmente, Presidente, Governo e Oposição, estão todos muito mais preocupados com taticismos eleitorais do que com o futuro de Portugal.