Opinião

A leste tudo de novo

Só consegui ver aquela imagem que se tornou histórica uns dias depois.

Naquela semana, e nas seguintes, a imbecilidade de algumas práticas de um SMO obrigava-nos a estar assim: sem acesso ao mundo, fechados numa caserna a fazer «ordem unida» e a perder - entre outras coisas básicas como tomar um café ou ligar para casa - a oportunidade de assistir a uma mudança histórica.

No contragolpe de Moscovo, a 19 de agosto de 1991, com Gorbachev de férias na sua datcha e os conservadores à solta, porque não queriam nem a Perestroika (reestruturação) nem a Glasnost (transparência), a revolução que o ainda presidente da URSS e do Partido Comunista Soviético tinha começado dois anos antes, quando percebeu que o mundo estava a mudar e que o sistema no qual tinha acreditado durante uma vida inteira não passava de uma utopia de uns poucos sobre muitos milhões, que tinha levado os concidadãos à fome, à miséria, à deportação e à morte em nome de uma ideologia quimérica, essa revolução estava a ser ameaçada.

Enquanto eu marchava num quartel, um dois, esquerdo, direito, um dois esquerdo direito, cobre pela frente, alinha pela direita, em Moscovo e não só a história estava, como quase sempre, a acontecer nas ruas.

Todas as revoluções precisam de um herói, nem que seja herói por acaso.

Um herói improvável, a pessoa certa no lugar certo ou, simplesmente, alguém que acredita que num qualquer momento da vida tem de ser mais forte, mais corajoso, mais determinado, mais destemido.

Sem acesso a televisão, telefone ou, sequer, um café no final do almoço ou do jantar, fechado numa triste rotina de uma recruta à época obrigatória e parcialmente inútil, talvez assim se perceba melhor porque é que as revoluções têm, normalmente, os militares como pilar. Podem ser eles a fazê-la ou podem ser eles a opor-se a ela.

Porque, no princípio da década de 90 era possível, com «disciplina militar», manter homens ignorantes durante semanas ou meses a fio, se fosse preciso e, já sabemos, da ignorância não nasce nada de bom.

DR

DR

Sexta-feira, final da tarde, não sem antes passar por umas humilhações ridículas, como estar várias horas numa formatura, ao sol, à espera do «passaporte» - um papel assinado que nos permitia ir a casa e voltar 48 horas depois - quando finalmente se respira o ar de liberdade, percebo que Boris Ieltsin tinha estado horas, não numa formatura ridícula mas, igualmente de pé, em, cima de um tanque - ou carro de combate, para usar linguagem mais militar - enfrentando os conservadores, os avessos à mudança, os que queriam que o passado voltasse a ser como era, em nome dos privilégios de que gozavam e um nome de uma ideologia que não tinha correspondência na vida do dia a dia.

Anonymous

As imagens, as fotografias, os sons daqueles dias em Moscovo, de 19 a 21, de um homem em cima de um tanque, a travar uma contra revolução, a parar um golpe, a segurar na esperança de um mundo mais livre e mais justo, mais glasnost, as imagens e as fotografias que só vi depois, três dias depois, ansioso por perceber tudo o que estava a acontecer, como tinha acontecido, e ele em cima de um tanque, vitorioso, sem desarmar, e eu, ali, um dois, esquerdo, direito, um dois esquerdo direito, cobre pela frente, alinha pela direita, a ignorância, repito, nunca trará nada de bom.

Anonymous