Opinião

Hitchcock, imagem a imagem

"Psico" (1960): o papel fundamental do grande plano no cinema de Hitchcock

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

O “mestre do suspense” foi, antes de tudo o mais, um invulgar criador de imagens: na Internet, através de um site sobre a globalidade da obra de Alfred Hitchcock, podemos descobrir, filme a filme, o génio criativo dessas imagens

No clássico “Psico” (1960), logo numa das primeiras e decisivas sequências, Marion Crane (Janet Leigh) foge com uma avultada soma de dinheiro. A certa altura, pára o carro à berma da estrada e adormece, acordando com um polícia que a aborda, perguntando-lhe se há algum problema… Alfred Hitchcock filma o rosto do polícia num grande plano pleno de intensidade: o comportamento do polícia não é ameaçador, basta a sua simples presença para que Marion sinta a inquietação de quem pode ser descoberta. Dito de outro modo: mesmo não aprovando o seu comportamento, o espectador é levado a partilhar as suas desencontradas emoções…

Exemplos como este (e podíamos citar muitos mais) são reveladores do poder das imagens “hitchcockianas”: há nelas uma perturbação intrínseca que resulta, não apenas do que é mostrado, mas também do cruzamento de olhares que, através delas, sentimos ou pressentimos. Muitas vezes, como é o caso, através de incríveis grandes planos de rostos ou objectos.

Pois bem, podemos encontrar tais imagens num site que recomendo vivamente: The Alfred Hitchcock Wiki´. Criado em 2003, funciona como uma verdadeira enciclopédia do cineasta consagrado como “mestre do suspense”, não apenas enquanto arquivo (informações detalhadas sobre filmes, artigos, livros, etc.), mas também como jornal em permanente actualização (novas análises, edições em DVD e Blu-ray, etc.).

As imagens são mesmo aos milhares, já que uma das secções mais originais e sedutoras se chama “1000 Frames of Hitchcock”. Ou seja: cada filme é apresentado através de nada mais nada menos que 1000 fotogramas. O resultado possui qualquer coisa de vertiginoso e, à sua maneira, pedagógico: vemos e compreendemos que Hitchcock concebia cada imagem como um elemento vital de toda uma arquitectura narrativa enraizada num sofisticado tratamento do espaço e, por isso mesmo, numa rigorosa montagem. A cena de “Psico” a que pertence o grande plano do rosto do polícia (aqui reproduzido) poderá ser um exemplo esclarecedor.