Opinião

A comédia é uma coisa muito séria

Robert De Niro em "O Rei da Comédia", ou o realizador Martin Scorsese a experimentar a comédia

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Através do ciclo de comédias que a Cinemateca está a apresentar, podemos perceber que, para lá dos “especialistas”, o género tem sido cultivado por autores que associamos a outros registos: Martin Scorsese, Ingmar Bergman, Alfred Hitchcock, etc.

Está a decorrer na Cinemateca Portuguesa um ciclo dedicado à comédia. Mais exactamente, trata-se da segunda parte de um evento organizado em três partes, iniciado em Janeiro deste ano, sob o signo dos “Reis da Comédia”. Aí foram mostrados títulos clássicos de actores e autores que, tradicionalmente, reconhecemos como mestres do género. Agora é a vez dos que, bem pelo contrário, tendemos a associar a outros domínios de expressão, supostamente mais sérios.

A designação deste novo capítulo (que se atrasou dois meses, devido à pandemia) é sugestiva: “A comédia, improvavelmente”. E vale a pena tomá-lo muito a sério, quanto mais não seja porque através dele se mostra que o humor não é exclusivo de ninguém. Mais do que isso: a ligeireza que, erradamente, se associa ao género cómico está sempre enredada com as mais diversas componentes dramáticas, por vezes perturbantes, por vezes trágicas.

Uma obra-prima tão esquecida como “O Rei da Comédia” (1982) pode servir de exemplo. Trata-se do filme que Martin Scorsese realizou logo após “Touro Enraivecido” (1980), com Robert De Niro. Reencontramos De Niro no papel de um fã de um vedeta da televisão, personagem que Scorsese atribuiu, justamente, a um dos génios da comédia de Hollywood: Jerry Lewis (1926-2017). O resultado é uma visão amarga e doce sobre os mecanismos da própria comédia e, mais do que isso, a dimensão perversa que pode contaminar a relação entre uma estrela e os seus admiradores.

Entre as quase três dezenas de títulos que compõem o ciclo, podemos encontrar, por exemplo, “Dr. Estranhoamor” (1964), a saga apocalíptica de Stanley Kubrick sobre a bomba atómica, “A Força do Sexo Fraco” (1964), subtil desmontagem dos artistas e dos seus críticos assinada por Ingmar Bergman, ou “Querido Diário” (1993), objecto confessional de Nanni Moretti, expondo os prós e contras de viver na cidade de Roma. Sem esquecer “O Terceiro Tiro” (1955), um divertimento macabro de Alfred Hitchcock, centrado nas atribulações de um cadáver que é várias vezes enterrado e desenterrado… Chama-se, no original, “The Trouble with Harry”.