Opinião

O Dr. Costa e o Sr. António

MANUEL FERNANDO ARAÙJO

Nada como ter duas personalidades, duas condições, duas formas de olhar a realidade. As vantagens são imensas.

Desde logo, a prespetiva que temos do país e do mundo, a discussão eterna sobre a causa das coisas, a ligeireza com que podemos discutir um tema à mesa de café versus o peso da institucionalidade da outra personalidade que nos leva ao dever de reserva, ponderação, recato, equilíbrio.

Na verdade, o homem é apenas um.

Mas as circunstâncias são sempre duas.

O Sr. António, sócio e adepto do Benfica, tem todo o direito de escolher em quem vai votar nas eleições para a agremiação desportiva a que pertence.

Faz parte.

Diante dos amigos, entre umas cervejas e uns caracóis, discute-se o futuro do clube, as várias hipóteses em cima da mesa, os prós e contras da governação do atual presidente.

O Sr. António não tem dúvidas e até se sente honrado por estar na comissão, onde só entram sócios notados ou notáveis, cujo nome empresta, acha o Sr. Vieira, credibilidade e, no limite, arrastará por causa dela, outros votantes indecisos.

- «Se o António vota no Vieira, talvez eu deva votar também, afinal o António sabe da coisa».

Mas depois há o Dr. Costa.

Parece o mesmo, mas devia ser outro.

Porque o Dr. Costa é, ao mesmo tempo, ele e o António, o primeiro-ministro do país.

Na vida do Dr. Costa, não há espaço para cervejas e caracóis com os amigos.

Esses momentos estão reservados ao António.

Deve ser um aborrecimento a vida do Dr. Costa, que tem de estar sempre soridente e disponível, preocupado com os altos desígnos da Nação, enfiado em aviões para reuniões importantes no estrangeiro, a tentar governar e a levar porrada da oposição, a ter de responder a perguntas desses indigentes que são os jornalistas, a ter de justificar opções políticas, a fazer contas à pandemia e ao mesmo tempo a preparar os próximos dez anos.

O Dr. Costa não tem descanso.

Mas, de vez em quando, o Dr. Costa precisa de ser apenas o Sr. António, o tal homem comum que tem o direito, «na vida privada», de ser como são os outros: fazer o que lhe apetece, votar em quem quiser, dizer uns palavrões e uns insultos, vociferar e deixar sair tudo o que o Dr. Costa não pode dizer, nem fazer. Só pode pensar.

Estaria tudo bem, nesta dicotomia de dupla personalidade, à segunda quarta e sexta aparece-nos o Dr. Costa, à terça quinta e sábado o Sr. António e aos domingos juntam-se os dois a mais um - ao secretário geral de um partido, que o tem como líder e que, por isso, o levou ao Governo.

Este complica ainda mais as coisas.

Porque já não é só o cidadão, nem apenas o primeiro-ministro.

Faz lembrar aquela anedota do cliente que telefona para a empresa «Couto, Couto e Couto».

A telefonista atende, o homem do outro lado da linha e diz:

-Poso falar com o Couto?

-Não está

-Então pode ser o outro Couto?

-Também não está.

-E o outro Couto?

-Só um momento que vou passar a chamada

De agora em diante, Dr. Costa, queira, por favor, logo de manhã, na primeira aparição, ter a gentileza de nos informar com quem estaremos a falar.

Se com o Dr. Costa primeiro-ministro, se com o Sr. António cidadão.

Não é por nada, mas dá sempre jeito ter noção de quem é o interlocutor.

É que em relação ao Sr. António ainda podemos relativizar opiniões, «dar um desconto», perceber o estado de espírito, entender as escolhas.

Mas o Dr. Costa tem a obrigação de «vestir o fato».

No sentido literal e no sentido figurado.

Um aborrecimento isto de ser dois em um, não é?