Opinião

A loja do Mestre André

NUNO VEIGA

Custa-me falar do Chega. Pela inconsistência programática, pela conversa de taberna, pelo populismo fácil, pelas frases ditas pela metade, pelo discurso anti-sistema, pela arrogância disfarçada de ambição.

E, também, por não ter identidade, por caberem lá todos, por "enquadrar" num partido "político" cidadãos que odeiam a sociedade em geral e algumas evoluções das últimas décadas em particular.

E ainda alguns nacionalistas, outros saudosistas dos fascismos vários, muitos machistas, xenófobos, racistas e marialvas e uns quantos homens das cavernas e senhoras histéricas.

Estas pessoas, agora militantes e dirigentes do partido, já exisitiam. Não nasceram com Ventura nem viveram escondidas da sociedade até chegarem a este partido.

Mas além destes, há muitos outros cidadãos que andavam militantes por outros partidos - como o próprio líder, militante do PSD e candidato a Loures nas últimas autárquicas - e que desaguaram no Chega na busca de um espaço que não tinham nos seus partidos de origem. Porque não eram relevantes, porque ninguém lhes ligava, porque o espaço estava ocupado. E muitos, muitos outros que nunca estiveram em partido nenhum e, aparentemente de repente, aparecem no espaço partidário.

"O Chega é a nova religião dos portugueses", disse mestre André, na aventura inusitada que foi fazer passar a direcção que ele escolheu, num partido que ele fundou, numa organização onde é ele que manda, e num corpo que não existiria - pelo menos da mesma forma - sem a cabeça dele.

Não há homens providenciais.

E os que o foram, ou julgaram ser, ficaram perdidos no nevoeiro, foram condecorados, no 10 de Junho ou estão no Panteão.
Não é o caso de Ventura, que abriu uma loja onde cabem todos.

A quase-lágrima no canto do olho, a ameça (outra vez) de demissão, a pausa de tensão, os três minutos de silêncio para deixar ouvir os gritos lancinantes de uma plateia que parecia estar diante do bispo Edir Macedo e não numa convenção de um "partido político", o choro e a comoção.

Gente feliz com lágrimas, abraços grupais em tempo de distanciamento, beijos e cumprimentos sem máscara, a GNR a multar prevaricadores das regras sanitárias, uma cartarse coletiva, uma "religião", como bem disse o líder. Mas, afinal, "o André fica", a aventura continua, a loja está aberta e cabem lá todos.

A coisa tornou-se numa espécie de igreja evangélica, de olhos postos no pastor, que os guiará até à terra prometida. Falta pouco, acreditem, para começarmos a ver senhoras a desmaiar diante de Ventura, homens que lhe vão querer beijar a aliança, deslumbrados pelo discurso anti-sistema, do portugal para os portugueses, dos que "pagam impostos para outros não fazerem nada", e de um sem-número de outros sermões que tocam fundo no coração dos clientes da loja. Que, repito, não nascarem ontem. Existiam antes do Chega e existirão, embora dispersos e mais isolado, depois.

O problema é o entretanto. O agora. O já.

Custa-me falar do Chega.

Ainda assim, fazer de conta que não existe, que não está a crescer, que não há, na sociedade (muita) gente disponível para transformar um partido numa igreja evangélica e espalhar (est) a mensagem, é o pior dos caminhos.

Perceber o que leva a que um partido tenha semelhanças emocionais e financiamento parecido com uma igreja, entender as razões dos que seguem este caminho e desmontar, ponto por ponto, a vacuidade e demagogia do partido é o primeiro passo para que se torne dispensável e inútil.

Os partidos, esses mesmos, os que existem há muito e estão "no sistema", os eleitos, os governantes, os dirigentes públicos, os juízes e magistrados e os homens e mulheres livres e de boa fé, terão de dar a resposta.

Antes que uma praga de gafanhotos de dimensões cataclíticas atinja "o sistema" e, depois, fiquemos todos a perguntar: -"Como é que isto nos aconteceu?"

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