Opinião

Sessão de Cinema: “O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu”

"O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu": a herança de Oliveira revisitada por João Botelho

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Na altura em que o novo filme de João Botelho, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, chega às salas, vale a pena recordar a sua relação com a herança de Manoel de Oliveira — e o gosto por “baralhar” ficção e documentário.

Agora que podemos ver nas salas de todo o país o novo filme de João Botelho — “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, adaptação do romance homónimo de José Saramago —, vale a pena lembrar que, ao longo de quatro décadas, o seu trajecto criativo tem oscilado entre o artifício da ficção e a observação do documentário. Mais do que isso: assumindo a inspiração de Manoel de Oliveira (1908-2015), Botelho encara os dois géneros como intermutáveis, sempre em convivência e contaminação.

Não admira que, a certa altura do seu percurso, Botelho tivesse decidido transformar a sua admiração pelo mestre em filme, “meio” documentário, “meio” ficção — chama-se “O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu” (2016) e está disponível em streaming.

Como ele próprio diz, trata-se de seguir uma lógica eminentemente didáctica, propondo “uma introdução à obra de Oliveira, uma divulgação de algumas das suas invenções cinematográficas”, ao mesmo tempo elaborando “um manifesto contra o esquecimento, a perda da memória.” De tal modo que Botelho integra mesmo no seu filme uma encenação pessoal de uma história do próprio Oliveira, afinal um dos argumentos que ele nunca conseguiu filmar.

Daí o sentido dialéctico deste projecto: por um lado, deparamos com uma biografia comentada de Oliveira, aliás integrando muitos extractos dos seus filmes (incluindo imagens impecavelmente restauradas de “Acto da Primavera”, de 1963); por outro lado, a história escrita por Oliveira (o “filme-dentro-do-filme”) acrescenta vida nova à herança do realizador de “Amor de Perdição” e “Vou para Casa”. Ou como diz Botelho: “… para que, ainda hoje, ele possa, através de mim, continuar a filmar.”

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