Opinião

Que futuro para os “blockbusters” de cinema?

John David Washington e Christopher Nolan, durante a rodagem de "Tenet"

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

O impacto do covid-19 tem condicionado de forma drástica a vida comercial dos filmes, a começar pelos que foram produzidos com gigantescos orçamentos. O certo é que os problemas estruturais da indústria começaram antes da pandemia.

Que vai acontecer aos “blockbusters”? Entenda-se: não se trata de partir de qualquer pressuposto qualitativo. O preconceito segundo o qual a crítica “não gosta” de “blockbusters” não passa de uma provocação gratuita, aliás serenamente desmentida pelos “prós” e “contras” que pontuam quase meio século de história cinematográfica, a começar, claro, pelo filme fundador do moderno conceito de “blockbuster”: o admirável “Tubarão” (1975), de Steven Spielberg [video: trailer original].

Aliás, o preconceito é ainda maior e, sobretudo, mais agressivo, já que pressupõe que a crítica funciona como um rebanho em que todos os críticos se regem por um só discurso… Enfim, lembremos apenas que, como qualquer espaço de opinião (da política ao desporto), a crítica está sempre marcada por profundas diferenças e clivagens.

Dito isto, vale a pena relançar a pergunta: com o abalo sofrido pelo mercado global do cinema, que lugar (ainda) resta para os “blockbusters”?

Observe-se o exemplo emblemático de “Tenet”, de Christopher Nolan. Filma brilhante, a meu ver. Mas não é isso que está em causa. O que está em causa é a frieza dos números, nas últimas semanas reflectida em diversas intervenções dos analistas de Hollywood (nomeadamente de publicações tão importantes como “The Hollywood Reporter” ou “Variety”). Com os seus 300 milhões de dólares de receitas em todo o mundo (dos quais cerca de 40 milhões nas salas dos EUA), “Tenet”, produzido por 200 milhões, é um incontornável desastre financeiro — tendo em conta os custos (incluindo as despesas de promoção), seria preciso um “box office” de, pelo menos, três vezes mais para o estúdio produtor começar a recuperar algum dinheiro.

Tudo isto por causa da pandemia? Sim, sem dúvida. Até porque nos EUA há zonas comercialmente fundamentais (incluindo Nova Iorque e Los Angeles) cujas salas continuam fechadas. Seja como for, convém não encarar o que está a acontecer, no cinema e não só, como resultado apenas do vírus que começou a ameaçar-nos em março de 2020. Dito de outro modo: a rotina de produção de filmes de gigantescos orçamentos há muito que é assunto de debate, e diversas discordâncias, no interior da grande indústria americana.

De modo esquemático, duas questões justificam a pertinência desse debate: em primeiro lugar, o facto de os “blockbusters”, devido aos seus custos astronómicos, envolverem riscos que podem, no limite, pôr em causa a sobrevivência de um estúdio; depois, a marginalização promocional e comercial a que, por causa dos investimentos nos “blockbusters”, são muitas vezes votados títulos de orçamento incomparavelmente menor.

São questões que permanecem em aberto e que, entenda-se também, não nasceram de qualquer reflexão crítica. Nem sequer jornalística. Na verdade, há vários anos que algumas personalidades de Hollywood vêm chamando a atenção para essa “perversão” financeira da indústria, a ponto de poder desencadear a sua “implosão”. Entre essas personalidades estão Steven Spielberg e George Lucas, não propriamente figuras descartáveis da história moderna do cinema americano. Quando é que eles abordaram o assunto? Um “pouco” antes da pandemia. Mais exactamente, em 2013, numa cerimónia que teve lugar na Universidade da Califórnia.