Opinião

Sessão de Cinema: “Ela Está de Partida”

Catherine Deneuve e Némo Schiffman: uma aventura existencial partilhada por uma avó e o seu neto

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Retomando uma certa tradição familiar e social do cinema francês, a realizadora Emmanuelle Bercot faz o retrato de uma avó que decide repensar toda a sua existência — e conta com a participação exemplar de Catherine Deneuve no papel central.

Pelo menos desde o impacto artístico e comercial de “Os Chapéus de Chuva de Cherburgo”, de Jacques Demy (Palma de Ouro de Cannes/1964), o nome de Catherine Deneuve mantém-se na linha da frente da produção cinematográfica francesa — e, em boa verdade, europeia. O que, paradoxalmente, faz com que, por vezes, a sua imagem corrente de “star” oculte a notável variedade e versatilidade das suas composições.

Vale a pena, por isso, chamar a atenção para o seu trabalho em “Ela Está de Partida”, uma produção de 2013 que, agora, pode ser (re)descoberta numa plataforma de streaming. Trata-se, curiosamente, de uma realização assinada por uma cineasta que também é actriz, Emmanuelle Bercot, o que, por certo, não será estranho à riqueza de interpretações que o filme apresenta.

Deneuve surge como alguém que, na sequência de várias atribulações nas suas relações mais íntimas, e também na gestão do seu restaurante, decide partir em viagem — acompanha-a o seu neto (Némo Schiffman) e o destino é incerto…

“Ela Está de Partida” não é um filme panfletário sobre o envelhecimento, como também não se reduz à encenação de um convencional conflito de gerações. Afinal de contas, todas as personagens, velhos e novos, andam à procura da sua identidade, num labirinto de inesperadas relações em que o conceito tradicional de família parece já não poder funcionar.

Emmanuelle Bercot consegue, assim, relançar as regras de um certo realismo social “à la française”, sem nunca reduzir as personagens a símbolos universais ou abstractos. Eis um filme que, por isso mesmo, se demarca dos valores mais fúteis do espectáculo, reencontrando uma visceral dimensão humana, ora comovente, ora divertida.

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