Opinião

Sessão de Cinema: “Zoe”

Ewan McGregor e Léa Seydoux no mundo assombrado de "Zoe"

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Eis um filme de ficção científica em que não há naves nem guerras inter-galácticas, já que tudo acontece num futuro com cenários muito parecidos com os nossos — Ewan McGregor e Léa Seydoux lideram o elenco.

Entre os títulos de ficção científica lançados nos últimos anos, “Zoe” (2018), realizado pelo americano Drake Doremus, é um dos mais interessantes e também dos menos conhecidos. Talvez porque não se adequa aos modelos mais rotineiros do género, mesmo com um elenco internacional liderado pelo britânico Ewan McGregor e a francesa Léa Seydoux, incluindo uma pequena participação de Christina Aguilera, o filme passou despercebido em quase todos os mercados — está agora disponível numa plataforma de streaming.

Não é uma aventura de naves espaciais ou guerras inter-galácticas. Tudo se passa num futuro próximo em que, em nome da ciência, se “resolveram” os problemas gerados pelas relações amorosas entre os frágeis humanos. Assim, os dirigentes sociais e políticos, tirando partido dos poderes de detecção de sofisticados computadores, criaram um sistema de selecção de companheiros "ideais" para cada indivíduo, homem ou mulher. Dito de outro modo: o sistema distribui parceiros sintéticos (robots altamente avançados, em tudo iguais a um ser humano) para formar casais “perfeitos”.

Em boa verdade, nem tudo corre como previsto. Quando é detectada alguma potencial aproximação amorosa que não tenha sido sancionada pelos computadores, o sistema mobiliza mesmo os seus agentes para repor a “ordem”. “Zoe” acaba por funcionar como uma história romântica quase tradicional, com a “pequena” diferença de tudo acontecer no dia a dia de uma sociedade hiper-vigiada.

O efeito de tudo isso é tanto mais forte e perturbante quanto Doremus encena o seu filme em cenários não exactamente “futuristas”, mas muito semelhantes a espaços que já existem no nosso mundo. Neste futuro assombrado, os recursos e valores tecnológicos estão muito próximos dos que encontramos no presente.

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