Opinião

China lidera mercados cinematográficos

"My People, My Homeland": a saga do povo chinês celebrada num filme de grande sucesso

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

A contabilidade é esclarecedora: com quase 2 mil milhões de dólares de receitas em 2020, as salas de cinema chinesas ultrapassaram, pela primeira vez, os valores do mercado norte-americano.

Eis um filme para a história: “My People, My Homeland” (à letra: “O meu povo, a minha pátria”), produção chinesa que, através de cinco histórias autónomas, celebra a saga do povo chinês, desde a a proclamação da República Popular da China, a 1 de outubro de 1949, até ao tempo presente. É o actual líder do box office chinês, com 360 milhões de dólares acumulados desde a estreia (a 1 de outubro, precisamente).

Mas não é apenas a receita de um título que está em causa. “My People, My Homeland” ficará como símbolo de uma semana em que se confirmou um facto que, há vários anos, na sequência do aumento exponencial do número de salas na China e do desenvolvimento da respectiva indústria audiovisual, os analistas previram. A saber: o mercado cinematográfico chinês superou os números do mercado norte-americano (EUA + Canadá), transformando-se no maior do mundo [a notícia está em destaque na imprensa especializada dos EUA, a começar pelo Variety].

Com o sucesso de filmes como “My People, My Homeland”, e também graças à reabertura das salas (em finais de setembro, o governo autorizou o aumento da ocupação de lugares para 75%), a China está perto de atingir este ano os 2 mil milhões de dólares de receitas — em rigor, de acordo com a estatística deste fim de semana, 1,99 contra 1,94 mil milhões do mercado americano.

Não é um mero recorde que está em jogo (até porque, convém não esquecer, todos estes números são, devido à pandemia, claramente inferiores aos de 2019). Nem fará sentido dizer que “as coisas mudam” num determinado dia, quando a contabilidade das salas chinesas supera os valores do espaço norte-americano. Trata-se apenas de reconhecer que, deste modo, a China se confirma como uma entidade fulcral nas dinâmicas globais do cinema — da produção dos filmes ao respectivo valor simbólico, das receitas de bilheteira ao cruzamento das opções artísticas.