Opinião

Para celebrar o audiovisual

Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg: "À Bout de Souffle" ou o nascimento da modernidade cinematográfica

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Um clássico absoluto da história do cinema, “À Bout de Souffle/O Acossado”, de Jean-Luc Godard, regressa à sala da Cinemateca para assinalar o Dia Mundial do Audiovisual.

Eis um acontecimento realmente excepcional, marcado por muitas e sugestivas ressonâncias simbólicas: numa sessão especial (terça, 27 Out., 21h30), a Cinemateca Portuguesa apresenta uma cópia restaurada, em formato digital, de “À Bout de Souffle”, o lendário filme de Jean-Luc Godard que está na origem da Nova Vaga francesa. Objectivo: assinalar o Dia Mundial do Audiovisual.

Esta é uma data que as instituições filiadas na FIAF (Federação Internacional dos Arquivos de Filmes) celebram há quatro décadas, na sequência da chamada “Recomendação para a Salvaguarda e a Conservação das Imagens em Movimento”, adoptada pela UNESCO em 1980, na Assembleia Geral que teve lugar em Belgrado. Recuperar um título tão emblemático como “À Bout de Souffle” — entre nós estreado como “O Acossado” — ilustra, afinal, uma dinâmica cultural muito precisa: a defesa das imagens em movimento envolve tanto o culto da memória (neste caso, através de um marco da modernidade cinematográfica) como a abertura à evolução técnica do próprio audiovisual (a cópia é, agora, digital).

Enfim, importa não esquecer que essa dinâmica faz também parte da obra-prima de Godard, cruzando a paixão pelos clássicos com a procura de novas formas narrativas. “À Bout de Souffle” centra-se, assim, num par inesquecível: ele é o francês Jean-Paul Belmondo, interpretando uma espécie de sobrevivente dos filmes “noir” de Hollywood, sonhando parecer-se com Humphrey Bogart; ela, a americana Jean Seberg, surgira como figura modelar de um cinema “made in USA” também a sofrer profundas mutações (interpretara já, sob a direcção de Otto Preminger, “Santa Joana” e “Bom Dia, Tristeza”, respectivamente em 1957 e 1958).

Tudo isto encenado numa cidade de Paris, agora filmada também de forma ousada e renovadora, além do mais tirando partido das novas câmaras mais leves e das películas mais sensíveis que estavam a alterar a prática cinematográfica. Eis o trailer de “À Bout de Souffle” feito a propósito do seu 60º aniversário e do lançamento da respectiva cópia restaurada, precisamente aquela que a Cinemateca agora dá a ver.

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