Opinião

Sessão de Cinema: “A Idade da Inocência”

Daniel Day-Lewis e Michelle Pfeiffer sob a direcção de Martin Scorsese — revisitando os tempos finais do século XIX

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Daniel Day-Lewis e Michelle Pfeiffer protagonizam um filme “diferente” de Martin Scorsese: “A Idade da Inocência” (1993) é uma obra-prima do melodrama histórico.

Quando lembramos a trajectória criativa de Martin Scorsese, é quase inevitável destacar o modo como a sua obra contém várias e perturbantes abordagens do mundo do crime, sendo “O Irlandês” (2019) a mais recente e aclamada referência. Mas vale a pena lembrar que essa trajectória está longe de ser linear, contendo alguns surpreendentes “desvios” — um deles, “A Idade da Inocência” (1993), é uma obra-prima do melodrama histórico.

Foi, precisamente, um título que surgiu em clara oposição ao filme anterior de Scorsese: “O Cabo do Medo” (1991), um “thriller” dominado por (mais) uma notável composição de Robert De Niro. “A Idade da Inocência” baseia-se no romance homónimo de Edith Wharton (1862-1937) e tem como pano de fundo a alta sociedade novaiorquina nas décadas finais do século XIX — está disponível numa plataforma de streaming.

Digamos, para simplificar, que se trata de um triângulo amoroso definido pelo respeitável advogado Newland Archer (Daniel Day-Lewis), a sua noiva May Welland (Winona Ryder) e uma prima de May, a condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer). O casamento vai ser, de alguma maneira, abalado pela paixão que nasce entre Ellen e Newland, numa saga de olhares secretos e verdades adiadas que Scorsese encena também como um imponente fresco histórico.

Para lá da sua sofisticação — a começar, claro, pelo trabalho dos actores, com inevitável destaque para o par Pfeiffer/Day-Lewis —, “A Idade da Inocência” é um legítimo herdeiro da mais nobre tradição clássica. Scorsese afirma-se, aqui, como um genial discípulo de autores como George Cukor ou Vincente Minnelli, trabalhando os meios do cinema como um bisturi dos enigmas da alma humana.

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