Opinião

Sessão de Cinema: “O Adeus à Noite”

Catherine Deneuve e Kacey Mottet Klein: a intimidade filmada por André Téchiné

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Com data de 2019, este é mais um exemplo do talento de André Téchiné: através da relação entre uma velha senhora e o seu neto, o cineasta francês continua a ser um atento observador dos segredos do comportamento humano.

Já está disponível em DVD aquele que ficará, por certo, como um dos filmes tematicamente mais delicados e dramaticamente mais complexos entre as estreias de 2020: “O Adeus à Noite” (lançado no Festival de Berlim de 2019) é a confirmação plena da importância do realizador André Téchiné no panorama do moderno cinema francês, além do mais ilustrando a sua peculiar relação com Catherine Deneuve — esta é a sua oitava colaboração, no interior de um processo criativo iniciado em 1981 com “Hôtel des Amériques/O Segredo do Amor”.

Deneuve interpreta uma velha senhora que vive pacificamente na sua propriedade, onde abriu uma escola de equitação. Recebe o seu neto (Kacey Mottet Klein) para um reencontro que parece ser “apenas” uma despedida mais ou menos nostálgica: está para partir para o Canadá e a avó quer partilhar alguns dias com ele… até que descobre que o jovem se prepara para integrar as fileiras do Estado Islâmico.

Eis um drama de pungente intimidade. Não se trata de abordar o tema do terrorismo como uma abstração, antes de contemplar a sua manifestação no seio de um espaço familiar, ilusoriamente separado das convulsões do mundo contemporâneo.

E se é verdade que a direcção de actores de Téchiné se distingue, como sempre, pela subtileza, não é menos verdade que a sua eficácia não pode ser dissociada do minucioso sentido de observação social que sempre conduziu o seu cinema. Nesta perspectiva, pode mesmo dizer-se que, através de títulos tão diversos como “Os Juncos Silvestres” (1994) ou “Os Fugitivos” (2003), a sua filmografia contém um particularíssimo panorama histórico de diversos momentos emblemáticos da história da França. Nesta perspectiva, ele é um dos mais legítimos, e também mais talentosos, herdeiros de Jean Renoir.

DVD